Escrivências: quem manda aqui sou eu (mas às vezes não)


Já tem um tempo que eu queria escrever alguma coisa sobre processos de escrita e afins mas ficava em dúvida se eu tinha competência pra falar sobre isso então resolvi escrever mesmo assim porque afinal é disso que a internet é feita.

Disso e da falta de vírgulas.

Muito tempo atrás, quando teve um encontro de livreiros com a Kiera Cass em uma das vezes que ela veio pro Brasil, alguém perguntou alguma coisa sobre como as histórias surgiam pra ela. E a Kiera respondeu algo sobre como os personagens sussurravam as próprias histórias pra ela, e como era seu papel ir contando o que eles iam falando. Depois desse dia, li muitos outros autores comentando coisas mais ou menos parecidas sobre como era na hora de colocar a história pra andar: os personagens mandavam no rumo da trama, e "eu não queria que tal evento acontecesse, mas era o que tinha que acontecer". E eu achava isso uma coisa muito mágica.

Até que sentei pra escrever algo meu e percebi que quando colocava minha história no papel, meu processo não era nada parecido com o deles.


Eu tinha a ideia, os personagens e um esquema do que eu queria que acontecesse, e por mais que seguisse a coerência da personalidade que tinha dado a eles, e prestasse atenção na continuidade da história, não tinha um momento em que eu pensava "eu não quero fazer X, mas isso foge das minhas mãos e é o que tem que ser feito". Se a trama começava a tomar um rumo que não tinha sido planejado, se eu decidisse que aquele caminho novo servia melhor, continuava nele; senão, voltava alguns ou muitos parágrafos e mudava o que fosse necessário pra que tudo se encaixasse novamente onde eu queria. Se a personalidade do personagem não condizia com o que eu queria que ele fizesse, ou eu desistia daquela ação porque não ficaria boa, ou eu criava alguma situação em que fosse justificável ele agir daquela maneira. Se meu casal não tinha química, eu podia desistir de fazê-los um casal, ou revisar tudo de forma a fazer essa química aparecer.

Não importa como olhasse, a história era minha, os personagens eram meus, e quem mandava ali era eu. Minha trama não era uma democracia. Se alguma coisa precisava ser cortada ou acrescentada ou modificada pra que eu tivesse o efeito que queria, então era isso que eu ia fazer, e mesmo se percebesse que o melhor era ir escrevendo como estava e ver como ficaria no final, ainda era uma decisão consciente minha. Se eu não sinto que tenho o controle do que tô escrevendo, ou não sai nada ou eu não consigo ficar feliz com o resultado.

Então comecei a achar que tinha alguma coisa errada comigo: que minha história era ruim, que meus personagens eram rasos, que eu era um embuste de escritora controladora. E quando tentava escrever alguma coisa seguindo o que alguns dos outros escritores diziam, não saía nada que prestava, então obviamente eu era o problema.


Mas não era. Eu só tinha um processo de escrita diferente deles e parecido com o de outros. E só consegui perceber isso de vez quando assisti a mesa da Socorro Acioli na Flipop, quando ela comentou que fazia esquemas dos capítulos como guia na hora de escrever. Eu tive quase uma iluminação divina quando ela disse isso, porque é exatamente assim que eu escrevo. Preciso ter um esquema com um mini resumo do que eu quero em cada capítulo, pra a partir daí construir algo em cima. E não tem nada de errado nisso.

Alguns escritores preferem fazer esquemas, outros preferem ir escrevendo direto e lidar com as coisas conforme forem acontecendo. Alguns preferem deixar a história e os personagens correrem soltos mesmo que isso signifique escrever cenas que eles não gostariam que acontecessem mas que se encaixam na trama e a vida é assim mesmo, outros preferem manter um controle maior de tudo na hora de passar pro papel ou pro word. E tem ainda outros que misturam tudo isso ao mesmo tempo ou fazem cada projeto de uma maneira.

E tá todo mundo certo, porque no final das contas, o melhor processo de escrita é aquele que funciona pra você. A única coisa que não vale a pena é ficar comparando o seu com o dos outros e achar que tem alguma coisa errada com você por causa disso, porque não tem. Se achou o que você prefere, tá perfeito. Se ainda não achou, vai testando que uma hora vai. E mesmo se achou e quer experimentar outros porque vai que também dá certo, se joga. Se fazer fichas de personagens não funciona pra você, então não faça. Se funciona, vai lá e faz.

O importante é você ficar feliz com o que sair disso tudo.

(Tentei cortar o máximo possível da palavra "eu" nesse post mas não rolou, dsclp)


Nenhum comentário :

Postar um comentário