5 contos nacionais com protagonistas lgbt+


Faz pouco tempo eu resolvi tentar o kindle unlimited pela segunda vez. Da primeira acabou não dando muito certo: na época do primeiro teste que fiz, só queria poder ler um livro específico da série Cretino irresistível, e dos outros livros internacionais que apareciam nenhum me interessava e eu não tinha paciência pra procurar coisas por lá.

Dessa vez, minha intenção com o unlimited era bem específica: eu queria poder ler autores nacionais que publicavam de forma independente, e levando em consideração o preço desses livros, o preço da mensalidade do kindle unlimited e a variedade dentro do que eu procurava, parecia valer a pena. Peguei um teste grátis por 30 dias pra ver no que dava e descobri o maravilhoso mundo dos CONTOS ESCRITOS POR AUTORES NACIONAIS. É a maneira perfeita de ler histórias curtas, legais e diferentes, e agora me dá vontade de esmurrar a minha própria cara por nunca ter pensado na possibilidade de explorar mais essa parte da Amazon, principalmente a parte de romances lgbt+.

Nesse momento tô terminando de ler "Contando estrelas" da Thati Machado e já peguei "Sutilmente" da Nina Spim com ilustrações da Alice Gonçalves pra ler depois, então aproveitei pra fazer esse post indicando os outros que li até agora e fazer propaganda da Olivia e do Vitor que são autores da Página 7.

Os links dão direto pra página da Amazon com os ebooks.



ENTRE ESTANTES
Olívia Pilar
"Isabel quer provar para todos que pode ser boa no curso que escolheu. Mas o que ela não imaginava ao ir buscar um livro na biblioteca da faculdade é que, antes de provar qualquer coisa, ela precisa conhecer a si mesma."
Conto super curto, super fofo e você termina chateadíssima exatamente porque ele é fofo e curto e dá vontade de ler mais mas NÃO TEM, Olivia foi cruel. Principalmente porque em poucas páginas ela consegue criar uma personagem redondinha e com a qual o leitor consegue se identificar com facilidade. Romance tendo início numa biblioteca, quem não queria algo assim? Aliás, é perfeito pra quem quer um romance curto e com uma representação maravilhosa de protagonistas negras e lgbt+. Dá pra todo mundo ler e terminar feliz.


TEMPO AO TEMPO
Olívia Pilar
"Carolina e Elisa não poderiam ser mais diferentes. Unidas por uma forte amizade, juntas formam o equilíbrio perfeito. Mas conforme os anos passam, elas percebem que o sentimento que nutrem uma pela outra pode ser mais forte do que imaginavam."
Olha a Olívia aqui de novo! Esse conto também é curto e fofo, e nesse caso, ele cobre todos os (muitos) anos de relacionamento entre as duas protagonistas, começando com a amizade entre as duas quando mais novas. Acho que esse é meu conto preferido dela e me deixou toda boba com a história. E esse também têm protagonistas negras.


EU E ELA
Maria Hollis
"Uma semana atrás, tudo mudou entre Lara e Nicole. Agora, em uma tarde de verão na piscina, tudo está prestes a mudar de novo."
Mais um conto curtinho e fofo, com protagonistas lgbt+ e uma delas é asiática - mais uma vez, representatividade importa. Esse eu senti que tem o tamanho que precisava ter pra contar essa parte da vida das duas garotas, e mesmo curtinho eu fiquei torcendo pra tudo dar certo no final.


DE TODOS OS MOTIVOS
Vitor Castrillo
"Confuso com seus sentimentos, Pedro recorre à internet e escreve em um fórum sobre a amizade e seus sentimentos por Henrique, seu melhor amigo. Em busca de ajuda e palavras de incentivo que o façam tomar a iniciativa que precisa para descobrir o que realmente existe entre os dois além da forte amizade."
Procurar ajuda na internet pra entender o que é que tá acontecendo, quem nunca. Um hino em forma de ebook com metáforas fofas, dá vontade de trancar os protagonistas num quartinho até que eles ENTENDAM O QUE É QUE TÁ ACONTECENDO. Uma coisa meio now kiss!, sabe.


A ROSA DE ISABELA
Solaine Chioro
"Isabela acaba de se mudar para uma pequena cidade no interior de São Paulo com a sua família e, enquanto suas irmãs ainda parecem se ajustar àquela nova realidade, a jovem sente-se confortável no novo ambiente. O infortúnio, porém, acaba entrando em suas vidas quando sua mãe se desespera, afirmando ter encontrado o monstro que habita a floresta, protagonista de uma antiga lenda da cidade. Decidida a tranquilizar sua mãe, Isabela vai à procura de tal fera e acaba se surpreendendo com o que encontra e com a proposta que recebe."
Releitura de "A bela e a fera" com protagonistas negras e lgbt+, precisa mais do que isso pra ser feliz?

3 livros infantojuvenis para arruinar seu emocional


Não vou entrar na questão da nomenclatura porque aqui no Brasil "infantojuvenil" às vezes era usada pra toda literatura produzida pra faixa etária dos 2 aos 18 anos, aí ficou "infanto" pra criança e "juvenil" pra mais ou menos de 9 a 18 anos, aí surgiu o termo "jovem adulto" pra livros mais adolescentes e eu gosto do termo "middle grade" mas é em inglês então por "infantojuvenil" eu quero dizer livros escritos pra faixa de 9 a 13 anos, mais ou menos.

Disse a pessoa que não ia entrar na questão da nomenclatura mas escreveu um parágrafo inteiro sobre isso. Algumas vírgulas foram comidas aí no meio.

A questão é que ainda persiste a ideia de que
1) literatura infantojuvenil precisa ser enrolada em plástico bolha e mantida longe de tudo que possa causar qualquer tipo de emoção conflitante no leitor e
2) é tudo muito bobinho

O que é uma enorme besteira. Os primeiros livros de Harry Potter são infantojuvenil, e JK Rowling  e também o Rick Riordan não costumam poupar os leitores deles de muita coisa. Mesmo se pegar os livros mais próximos do infanto que do juvenil, taí Diário de um banana e Querido diário otário com dois dos protagonistas mais cretinos e sarcásticos que eu já li (eu amo Querido diário otário).

Claro que é preciso ter cuidado em como temas mais densos são tratados e que tem muitos livros pra essa faixa etária que são ótimos e puro amor em forma de açúcar, mas qualquer pessoa que conviva por certo tempo com pré-adolescentes sabe que além de gostar de coisas fofas e despretensiosas, eles também gostam de um pouco de caos, destruição e descompensamento emocional.



Esse post é pra indicar 3 livros infantojuvenis que focam na parte do descompensamento emocional.




A HISTÓRIA DE DESPEREAUX
Kate DiCamillo, Martins Fontes
livro físico: amazon
Se tem uma autora que não tem dó de pisar no emocional dos leitores, é a Kate DiCamillo. Nesse ela conseguiu criar histórias que se entrelaçam aos poucos e nunca na sua vida um rato e um camundongo vão te deixar tão alterada emocionalmente quanto aqui. Pra sentir o clima, um trecho:



A EXTRAORDINÁRIA JORNADA DE EDWARD TULANE
Kate DiCamillo, Martins Fontes
livro físico: amazon 
Outro hino da Kate DiCamillo. O Edward Tulane do título é um coelho de porcelana muito amado pela dona, a menininha Abilene, e exatamente por isso ele é muito, MUITO arrogante. Até que ele sofre um acidente e se perde, e a partir daí a vida dele vira um mar de desgraça e coisas triste acontecendo, tudo isso contribuindo pra ele ver que a vida é um negócio complicado que vai muito além da Abilene. Pra vocês terem uma ideia, eu tô aqui mandando trechos do livro pra Iris e aconteceu isso


Eu não tenho esse em casa e não achei as quotes que eu queria em português, mas nesse link aqui você pode ir pro Goodreads e dar uma lida em algumas em inglês. Pode acabar pegando alguns spoilers, mas fazendo uma alusão tosca ao título, nesse livro o que importa mesmo é a jornada.


A COISA TERRÍVEL QUE ACONTECEU COM BARNABY BROCKET
John Boyne, ilustrações Oliver Jeffers, Companhia das letrinhas
livro físico: amazon 
Os Brocket são as pessoas mais normais do mundo, e numa família de pessoas mais normais do mundo, nascer como uma criança que literalmente flutua não é uma coisa muito legal. Um dia uma coisa terrível acontece, e é nessa jornada de Barnaby que A coisa terrível que aconteceu com Barnaby Brocket é um dos livros mais sensíveis que eu já li na minha vida. Como li emprestado, não tenho aqui as quotes que eu queria colocar, mas nessa imagem aí embaixo tem um pedacinho do que te espera na leitura. Créditos da foto: Thyeme Figueiredo, do blog Opinião da designer (só clicar pra ver o post dela com mais fotos lindas).




BÔNUS: MAIS UM MONTE DE INDICAÇÕES

Desses, alguns eu li, outros pretendo ler, outros foram indicações de pessoas maravilhosas que também sabem o quanto um livro infantojuvenil pode desgraçar mexer com o emocional de uma pessoa - não importando se ela tem 11 ou 30 anos.

POCHÊ, A TARTARUGA QUE VIVEU A VIDA
Florence Seyvos e Claude Ponti, Martins Fontes (amazon)
Qualquer pessoa com depressão vai se enxergar nesse livro. A história toda é basicamente uma metáfora pra uma pessoa que tem esse transtorno, do início até a superação. Sim, a tartaruga tem depressão. É um livro infantojuvemil que ajuda a falar sobre depressão com pré-adolescentes. Vocês têm alguma ideia da importância disso, da importância de tratar desse assunto com essa faixa etária?

A TEIA DE CHARLOTTE
E. B. White, Martins Fontes (amazon)
"AH, É A MENINA E O PORQUINHO?" É. Não confundir com Babe, o porquinho atrapalhado. "AH, É O DA ARANHA?" É. A aranha Charlotte é provavelmente um dos melhores personagens que eu já li.

O ELEFANTE DO MÁGICO
Kate DiCamillo, Martins Fontes (amazon)
"Mas essa autora já não apareceu aqui?" pois é, então vai com fé.

O TIGRE
Kate DiCamillo, Martins Fontes (amazon)
"Nossa, essa mulher de novo?" sim pra vocÊS ENTENDEREM O QUANTO ELA É BOA EM ARRUINAR SEU EMOCIONAL.

EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS
Clare Vanderpool, Darkside (amazon)

ECOS
Pam Muñoz Ryan, Darkside (amazon)

PAX
Sarah Pennypacker, ilustração Jon Klassen, Intrínseca (amazon físico e amazon ebook)

CRENSHAW
Katherine Applegate, Plataforma21 (amazon físico e amazon ebook)

SUZY E AS ÁGUAS VIVAS
Ali Benjamin, Verus (amazon físico e amazon ebook)

PASSARINHA
Kathryn Erskine, Valentina (amazon físico e amazon ebook)
Um dos melhores livros com personagem asperger que eu já li na vida.

CLAROS SINAIS DE LOUCURA
Karen Harrington, Intrínseca (ebook)

THE GIRL WHO DRANK THE MOON
Kelly Barnhill, Algonquin Young Readers  (ebook em inglês, vai sair aqui pela Galera Record)

AMANHÃ VOCÊ VAI ENTENDER
Rebecca Stead, Intrínseca (ebook)

O que Gildo nos ensina sobre o trope "mulheres na geladeira"


Tem um livro infantil que eu gosto muito, Gildo, da Silvana Rando.

Esse é o Gildo.


O Gildo é um elefantinho muito simpático e corajoso, mas que tem pavor de bexiga. Ele vai numa festinha de aniversário de um colega e a mãe desse colega coloca amarrado no braço do Gildo justamente uma bexiga. MOMENTOS DE TENSÃO. Ele não consegue tirar, então acaba passando o dia inteiro tendo que lidar com aquela bexiga ali, até que acaba percebendo que não tem mais medo dela e todo mundo fica feliz.

Moral desse post: se dá pra escrever uma história de aprendizado e superação em 25 páginas usando um elefantinho e uma bexiga, dá pra escrever um livro jovem adulto sobre aprendizado e superação sem precisar estuprar/matar/abusar/torturar sua personagem feminina para que o protagonista masculino aprenda alguma coisa ou acumule experiências de vida.

Fim.

Mentira, aqui nesse link tem explicando exatamente o que é o trope "Mulheres na geladeira" e por que ele é nocivo. A Iris Figueiredo, aquela autora linda da duologia  Confissões On-line e que vai lançar livro novo ano que vem pela editora Seguinte #propaganda também já fez um video sobre o assunto.

Infelizmente é mais comum do que se pensa encontrar misoginia disfarçada de sensibilidade em livros young adult, new adult e muitos outros, e a gente precisa parar de bater palma pra isso.


Escrivências: quem manda aqui sou eu (mas às vezes não)


Já tem um tempo que eu queria escrever alguma coisa sobre processos de escrita e afins mas ficava em dúvida se eu tinha competência pra falar sobre isso então resolvi escrever mesmo assim porque afinal é disso que a internet é feita.

Disso e da falta de vírgulas.

Muito tempo atrás, quando teve um encontro de livreiros com a Kiera Cass em uma das vezes que ela veio pro Brasil, alguém perguntou alguma coisa sobre como as histórias surgiam pra ela. E a Kiera respondeu algo sobre como os personagens sussurravam as próprias histórias pra ela, e como era seu papel ir contando o que eles iam falando. Depois desse dia, li muitos outros autores comentando coisas mais ou menos parecidas sobre como era na hora de colocar a história pra andar: os personagens mandavam no rumo da trama, e "eu não queria que tal evento acontecesse, mas era o que tinha que acontecer". E eu achava isso uma coisa muito mágica.

Até que sentei pra escrever algo meu e percebi que quando colocava minha história no papel, meu processo não era nada parecido com o deles.


Eu tinha a ideia, os personagens e um esquema do que eu queria que acontecesse, e por mais que seguisse a coerência da personalidade que tinha dado a eles, e prestasse atenção na continuidade da história, não tinha um momento em que eu pensava "eu não quero fazer X, mas isso foge das minhas mãos e é o que tem que ser feito". Se a trama começava a tomar um rumo que não tinha sido planejado, se eu decidisse que aquele caminho novo servia melhor, continuava nele; senão, voltava alguns ou muitos parágrafos e mudava o que fosse necessário pra que tudo se encaixasse novamente onde eu queria. Se a personalidade do personagem não condizia com o que eu queria que ele fizesse, ou eu desistia daquela ação porque não ficaria boa, ou eu criava alguma situação em que fosse justificável ele agir daquela maneira. Se meu casal não tinha química, eu podia desistir de fazê-los um casal, ou revisar tudo de forma a fazer essa química aparecer.

Não importa como olhasse, a história era minha, os personagens eram meus, e quem mandava ali era eu. Minha trama não era uma democracia. Se alguma coisa precisava ser cortada ou acrescentada ou modificada pra que eu tivesse o efeito que queria, então era isso que eu ia fazer, e mesmo se percebesse que o melhor era ir escrevendo como estava e ver como ficaria no final, ainda era uma decisão consciente minha. Se eu não sinto que tenho o controle do que tô escrevendo, ou não sai nada ou eu não consigo ficar feliz com o resultado.

Então comecei a achar que tinha alguma coisa errada comigo: que minha história era ruim, que meus personagens eram rasos, que eu era um embuste de escritora controladora. E quando tentava escrever alguma coisa seguindo o que alguns dos outros escritores diziam, não saía nada que prestava, então obviamente eu era o problema.


Mas não era. Eu só tinha um processo de escrita diferente deles e parecido com o de outros. E só consegui perceber isso de vez quando assisti a mesa da Socorro Acioli na Flipop, quando ela comentou que fazia esquemas dos capítulos como guia na hora de escrever. Eu tive quase uma iluminação divina quando ela disse isso, porque é exatamente assim que eu escrevo. Preciso ter um esquema com um mini resumo do que eu quero em cada capítulo, pra a partir daí construir algo em cima. E não tem nada de errado nisso.

Alguns escritores preferem fazer esquemas, outros preferem ir escrevendo direto e lidar com as coisas conforme forem acontecendo. Alguns preferem deixar a história e os personagens correrem soltos mesmo que isso signifique escrever cenas que eles não gostariam que acontecessem mas que se encaixam na trama e a vida é assim mesmo, outros preferem manter um controle maior de tudo na hora de passar pro papel ou pro word. E tem ainda outros que misturam tudo isso ao mesmo tempo ou fazem cada projeto de uma maneira.

E tá todo mundo certo, porque no final das contas, o melhor processo de escrita é aquele que funciona pra você. A única coisa que não vale a pena é ficar comparando o seu com o dos outros e achar que tem alguma coisa errada com você por causa disso, porque não tem. Se achou o que você prefere, tá perfeito. Se ainda não achou, vai testando que uma hora vai. E mesmo se achou e quer experimentar outros porque vai que também dá certo, se joga. Se fazer fichas de personagens não funciona pra você, então não faça. Se funciona, vai lá e faz.

O importante é você ficar feliz com o que sair disso tudo.

(Tentei cortar o máximo possível da palavra "eu" nesse post mas não rolou, dsclp)


O cabo amarelo no lugar errado


Vai vendo.

Por esses dias eu resolvi dar uma arrumada nos cabos do computador e do roteador/modem/eu-não-sei-o-nome-daquilo. Tirei todos eles do lugar, dei uma limpada, arrumei os que estavam embolados, coloquei todos de volta nos devidos lugares.

É claro que nesse processo eu ferrei a internet.

E eu sabia que o problema era alguma coisa no roteador/modem/eu-não-sei-o-nome-daquilo, só que nada fazia sentido. Eu tinha colocado tudo de volta. O cabinho que ia na tomada estava no lugar do cabinho que ia na tomada. O cabo azul estava onde deveria estar o cabo azul. O cabo amarelo estava na portinha amarela.

Antes de ceder aos meus instintos e arrebentar tudo com um martelo, minha mãe mandou uma mensagem para um primo nosso, pedindo socorro. Ele ficou de vir no dia seguinte cedo para dar uma olhada no que é que eu tinha feito.

Uma olhada nas configurações, não tinha nada de errado, então quando falei que tinha tirado e recolocado os cabos do roteador/modem/eu-não-sei-o-nome-daquilo, ele foi dar uma olhada.

- É o cabo amarelo que tá no lugar errado.

UÉ.

- Mas eu coloquei o cabo amarelo na portinha amarela.

- Sim, você fez o mais lógico, mas o cabo amarelo vai nessa outra portinha ali.

- Ah.

E a internet voltou a funcionar.

E é isso, gente. Na vida eu sou esse cabo amarelo que tá errado até quando tá no lugar certo.


Das pequenas desgraças da vida (porque se for falar das grandes esse post não sai ainda hoje)


Ultimamente só tem desgraça acontecendo na minha vida. Aquele tipo de coisa que parece que a vida tá te jogando um monte de pedrada, aí você fala "ok, já entendi" mas ela vai lá e taca mais algumas que é pra ter certeza que você entendeu. Então resolvi entrar de vez no clima e fazer uma pequena lista daquelas desgraças cotidianas. As do dia a dia. As que te enlouquecem aos poucos. As que te fazem ficar com olhar de câmera do The Office.


Afinal, a gente paga internet é pra sofrer tudo junto, então segura minha mão e vamo.

Picada de pernilongo na sola do pé

Arrumar uma pilha enorme de alguma coisa e descobrir logo depois que precisa exatamente do que ficou embaixo de tudo

Colocar o despertador pra tocar 3 da tarde e perceber (já atrasado) que botou sem querer pra tocar 3 da manhã.

Deixar o celular pra carregar e esquecer de plugar na tomada

Entrar uma farpinha fina no dedo, tentar tirar com a pinça e sem querer empurrar a maldita ainda mais dentro da pele




Não lembrar de pegar a toalha antes de entrar no banho

Ficar horas na fila do banco e descobrir que esqueceu o boleto em casa

Anotar alguma coisa em um papel que não podia

Anotar algo importante e perder o papel

Ir ao mercado comprar alguma coisa específica, comprar um monte de coisa e esquecer justamente aquela que precisava




Esquecer se já tomou um remédio ou não

Comer alguma coisa e sentir o gosto de metal da colher

Tirar tudo do lugar pra arrumar e depois perceber que tem que arrumar mesmo

Engasgar com o enxaguante bucal tipo LISTERINE

Pingar neosoro e sem querer ele escorrer pra garganta



Tudo que você quer ver nunca tem na Netflix

Ter que atender o telefone

Puxar uma pelinha da cutícula com os dentes e sem querer arrancar quase a pele inteira do dedo

Delivery fechado

MEIA MOLHADA



Vocês podem colocar mais sugestões nos comentários, porque uma das pequenas desgraças da vida é fazer um post de pequenas desgraças da vida, mas esquecer quase todas na hora que precisa.

A vida, ela é uma vaca.


Fui atacada duas vezes pela mesma barata e estou profundamente ofendida


Considerando que meu horário de sono virou desses em que vou dormir 8 da manhã, acordo cerca de meio-dia, fico com vontade de morrer e volto a dormir até 5 da tarde, acordando mais ou menos nesse horário e depois ficando emputecida por ter perdido a tarde toda sendo que eu podia consertar tudo isso tomando o remédio que meu psiquiatra tinha recomendado para regular meu sono mas consertar problemas de maneira prática, QUEM FAZ ISSO, MINHA GENTE? Então madrugada é o horário em que fico com mais fome. E, por causa disso, entro e saio da cozinha milhões de vezes.

Então eu tô lá, de boa no meu canto, curtindo a insoniedade na porta da cozinha, prestes a entrar, quando cai alguma coisa na minha cabeça.

A primeira coisa que passou pela minha cabeça (pun not intended) foi que era uma lagartixa. E como não costumo ter medo de lagartixa, bati a mão na bichinha e joguei pra longe. E a bichinha voou na parede.

Lagartixas não voam. Pelo menos acho que não, posso estar errada, as coisas evoluem com muita rapidez hoje em dia e com esses escândalos de leite com soda cáustica e carne com ácido e papelão, e aqui em casa a gente toma fanta uva, então vai saber que tipo de mutação elas podem apresentar.

A questão é que o que voou na parede não era uma lagartixa. Era uma barata.

O que significava que o que tinha caído na minha cabeça não era uma lagartixa.

Era uma barata.



E eu morri um pouquinho por dentro quando lembrei que não tinha mais inseticida, então entrei na cozinha correndo, fechei a porta e fiquei um tempo lá, esperando para ver se a desgraçada sumia.

Não sumiu. Quando abri a porta para sair, ela estava no mesmo lugar. Então saí correndo e as coisas ficaram por isso mesmo.

Só que um tempo depois me deu fome de novo. E eu, com aquela ingenuidade das pessoas que às vezes têm alguns ataques de burrice e acham que as coisas não podem piorar, deduzi que talvez a barata não estivesse mais lá.

Fui até perto da porta e olhei, meio de longe. Nada de barata. Ótimo. Me aproximei da porta. A barata surgiu do nada e voou no meio da minha cara.

A
BARATA
VOOU
NO
MEIO
DA
MINHA
CARA.


Desviei por milímetros da morte certa, desisti de entrar na cozinha e voltei correndo pro quarto, mas minha alma ficou na porta da cozinha mesmo.

Primeiro eu fiquei assustada.

Então eu fiquei puta.

Depois decidi que estava ofendida.

Ok ela ter pulado na minha cabeça da primeira vez, provavelmente estava no teto e foi cagada do destino ela ter caído. Acontece. Paciência. Mas ela VOOU NA MINHA CARA depois.

Eu não fiz NADA pra merecer isso. Não ataquei com inseticida, não bati com a vassoura, NADA. Eu só queria um pacote de bolacha e fui vítima dessa violência desmedida.

A gente não pode se sentir segura nem dentro da própria casa. Absurdo.




Leituras de Fevereiro/2017


Acabou que em Fevereiro li mais do que tinha pensado. Esse começo de ano anda bem produtivo pra leituras, pena que o resto da minha vida não segue a mesma direção HAHAHA HA ha.


ENFIM.

Por aqui teve a continuação do post sobre livros que poderiam virar minisséries e eu continuo fazendo pensamento positivo pra que A cabeça do santo um dia se torne uma. Falando em A cabeça do santo, teve a resenha dele e a Socorro Acioli foi indicada com esse livro ao LA Times Book Prizes! Também teve no blog um post-resumão de comentários sobre a série A Seleção da Kiera Cass. Tem spoilers, mas o post ficou bonitinho então 'bora dar uma olhada. O último post do mês foi um leve desabafo no estilo cuidado com a burra.

Também tô aos poucos dando uma ajeitadinha no instagram do blog pra deixar mais bonitinho e acabei criando um pessoal pra não misturar as bagaça. Então no @mareskawho tem fotos de livros e coisas do blog (AH VÁ!) e no @maremaremrsk um monte de coisa aleatória (provavelmente muita foto de gato e pato).

Das leituras feitas. Nada tá na ordem porque esqueci de colocar.


1 - AFTERWORLDS
Scott Westerfeld
Esse foi a última resenha daqui, reitero que todo mundo devia ler, Westerfeld é lindo, Westerfeld é amor.

2 - FELIZES PARA SEMPRE
Kiera Cass
Do livro de contos da série A Seleção sem dúvida o melhor de todos é da Celeste maravilhosa (não te perdoei nem nunca vou, Kiera). Tem mais sobre ele no post de comentários da série toda.

3 - A COROA
Kiera Cass
A Eadlyn é uma protagonista bem mais legal que a America. Também tem mais sobre ele no post de comentários da série toda, igual ao Felizes para sempre aí de cima.

4 - CHEFE IRRESISTÍVEL
Kiera Cass
No final das contas o casal que eu menos gosto da série tem o livro extra que provavelmente é o mais legal. No post de comentários da série tem mais sobre ele.

5 - TRINTA E POUCOS
Antonio Prata
As crônicas me divertiram (principalmente as que ele menciona os filhos), mas não consegui não comparar com o Nu, de botas. E nessa comparação, Trinta e poucos saiu perdendo. Tá longe de ser ruim, mas achei que ia me divertir nível Nu, de botas, e isso acabou não acontecendo. Acho que o problema tava no que eu esperava, e não no livro em si.

6 - SALT
Nayyirah Waheed
Não errei a capa não, é essa mesmo. Salt é um livro de poesia que fala sobre identidade, amor, vida, sensação de pertencimento, tudo isso relativo à cultura negra. Achei bem pouco sobre a autora no google, mas encontrei o suficiente pra achar o livro maravilhoso e ela maravilhosa e eu não sei comentar poesia, então vou colar aqui um comentário que achei no goodreads: "the collection is a beautiful expression of black culture, the darkness, the light, and all of the colors in between black and white. It is edgy, profound, and unapologetic in its brutal honesty." (link do comentário aqui). Li em ebook e por enquanto não tem em português, mas bem que podia.

7 - NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL
Gabriel García Márquez
Esse na verdade foi uma releitura, porque já tinha lido na época da faculdade, mais ou menos 3 encarnações atrás. Até hoje só li dois livros do Gabo, esse e Memórias de minhas putas tristes, e esse do coronel eternamente esperando algo no correio e tentando sobreviver num ambiente hostil e modorrento que poderia bem se chamar Onde Judas Perdeu as Botas é meu preferido. Não é um livro pra quem gosta de ação porque praticamente nada "acontece" de fato e a história dá um misto de nervoso/angústia, mas talvez seja exatamente por isso que gosto tanto dele. Futuramente pretendo consertar essa falha no meu caráter de ter lido tão pouca coisa do Gabo.

8 - ALÉM DOS TRILHOS
Mika Takahashi
Apoiei essa HQ sem texto no Catarse por causa de um post no facebook da Carol Christo e porque tinha achado os desenhos da autora lindíssimos. Aí a HQ chegou, eu li e... assim... O TANTO QUE EU FIQUEI EMOCIONADA. O TANTO QUE EU CHOREI. O TANTO QUE A HISTÓRIA É BONITA E SENSÍVEL. O TANTO QUE EU ME APEGUEI A ESSE COELHO FALTANDO UMA PECINHA E TENTANDO PREENCHER A PECINHA FALTANDO. Essa HQ me deu sentimentos comparáveis aos que sinto toda vez que releio The missing piece meets the big O do Shel Silverstein, que aqui no Brasil saiu pela Cosac. E quem me conhece bem sabe o tanto de feelings que eu tenho por esse livro do Silverstein. Já declaro desde já que Além dos trilhos é uma das coisas mais bonitas e emocionais que eu li esse ano.




O Fevereiro de vocês rendeu? Meu Março só sei que vai ser bem cheio: comecei Menina Má, do William March numa edição lindíssima pela Darkside, pretendo ler My sister rosa da Justine Larbalestier dona do meu coração e espero ter tempo pra We have always lived in the castle da Shirley Jackson - os 3 livros giram em torno de crianças psicopatas e/ou assassinas. Outro plano pra esse mês é começar Deuses Americanos do Neil Gaiman, mas não sei se vai ser terminado ainda em Março. Também tenho deadline pra cumprir, o que é ótimo porque me obriga a escrever na marra e eu escrevo melhor sob pressão (a Pólen que o diga, já que entrego os textos sempre tudo em cima da hora DESCULPA PÓLEN NÃO DESISTE DE MIIIIIIIIIIIIIIM!). Vocês já têm planos leiturísticos ou algo mais pra Março?

BOA SORTE GENTE, HORÓSCOPO DA SUSAN MILLER JÁ TÁ NO SITE DELA E ESSA SENHORA NÃO SE DECIDIU SE MEU MÊS VAI SER PRODUTIVO OU SE EU VOU MORRER, COMO QUE PROCEDE UM NEGÓCIO DESSES?


AFTERWORLDS


›› autor: scott westerfeld
›› editora: Simon & Schuster
›› ISBN: 9781481435055
›› número de páginas: 599
›› onde comprar: cultura | amazon
›› título no brasil: além-mundos
›› editora: galera record
›› onde comprar em português: cultura | saraiva | amazon
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sinopse: Depois de ter escrito seu primeiro livro em um mês, Darcy Patel fecha com uma grande editora e se muda para Nova York para realizar seu sonho de viver de escrita - pelo menos por um tempo. Lizzie, depois de um ataque terrorista num aeroporto, acaba atravessando o véu que separa o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Lizzie é a protagonista do livro de Darcy, e as duas vão juntas aprender a lidar com a vida, o universo  e etc.

Vocês vão ver muito por aqui casos em que compro um livro e levo 3 encarnações pra resolver ler, ou então começo a ler, paro e só volto em ano bissexto. Afterworlds foi mais um menos uma mistura dos dois e eu nem sei porquê, já que a leitura não estava chata. Uma hora começou a me incomodar ele parado lá no Goodreads e criei vergonha na cara. Ainda bem, porque foi uma das coisas mais maravilhosas que eu já li. Não que isso seja tão surpresa assim, considerando meu amor pelo Scott Westerfeld até quando o livro dele é mediano. A questão é que Afterworlds me pegou pelo tanto que me vi representada nos questionamentos e nas dúvidas da Darcy. Não só eu, aliás. Eu vi ali tantas discussões e tweets e textos e conversas e surtos que amigas e amigos meus já tiveram e que eu presenciei.

Entre ter escrito seu livro em um mês, se mudado para Nova York pra revisar e escrever a continuação e finalmente o lançamento, Darcy passa por todos os estágios que praticamente todos os autores de livros young adult já passaram. As dúvidas sobre ter ou não feito uma boa representação de coisas e pessoas, o nervoso que dá quando a escrita empaca, descobrir como essa indústria funciona e principalmente, a síndrome do impostor. Essa coisa de não saber se merece mesmo se considerar escritor, se sequer pode ser chamado de escritor, e se aquele livro for a única coisa que ele vai escrever a vida toda?, e se nunca mais conseguir escrever algo com a mesma qualidade?, e se o livro não tem qualidade nenhuma e as pessoas só não perceberam isso ainda?, e se a recepção a ele for horrível e ninguém gostar?. Todo mundo que escreve ou já tentou escrever um livro eventualmente vai se deparar com essa ideia fixa de que de algum modo a gente tá enganando todo mundo porque nossa capacidade de escrever no final das contas ou não existe ou tá sendo seriamente superestimada.

Escrever um livro é um negócio dolorido por isso. Não é só a dificuldade em criar personagens, encaixar as cenas, cumprir os prazos e fazer o plot funcionar e ficar coerente. É o tempo todo ter que lidar com essa sensação de ser um embuste em forma de caneta e papel. E a Darcy vive tudo isso enquanto o leitor acompanha e aprende também algumas coisas sobre como funciona a publicação de um livro, além do amadurecimento da própria Darcy. O Westerfeld não podia ter botado isso no papel de maneira melhor. E ainda nos deu um exemplo bem legal de como se traz diversidade pra literatura young adult sem criar estereótipos (a Darcy é descendente de indianos e lésbica e ainda temos um ship maravilhoso pra torcer).

Uma sacada ótima do livro é exemplificar tudo isso na forma da história que Darcy escreve, cuja protagonista é Lizzie, Afterworlds (que por acaso também é o nome do livro da protagonista) intercala os capítulos entre a vida da Darcy e os capítulos do livro que ela escreve. No começo não tive tanto interesse assim pelos capítulos da Lizzie porque estava mais interessada em saber sobre a própria Darcy. Só que quando ela começa a falar mais sobre a revisão do livro e conversa com os autores que ela vai conhecendo, fica mais claro o motivo da escolha de colocar os capítulos da Lizzie: ver a evolução da história que a Darcy escreve. Muitas vezes o leitor acaba um capítulo da Lizzie e no seguinte a Darcy comenta como um determinado aspecto daquele capítulo tinha sido escrito de outro jeito, mas ela mudou na revisão (que é o que o leitor acabou de ler). Não sei se consegui me expressar direito, mas é quase como se desse pra acompanhar junto com a Darcy o processo de revisão do Afterworlds dela.

É a leitura perfeita pra qualquer pessoa que tenha algum interesse por escrita ou por saber pelo que passam seus escritores preferidos de young adult.

Aquelas imbecilidades que a gente jura que nunca vai fazer mas um dia faz


Daí que tem umas coisas que às vezes aparecem em textos, posts, histórias, seriados, com a amiga da amiga da vizinha, tanto faz, que a gente olha e pensa "mas gente, como que essa criatura de deus fez isso?" e aí declara com aquela certeza que só gente iludida na vida tem: "eu nunca ia fazer uma estupidez dessa". Somos pessoas evoluídas. Algumas imbecilidades a gente simplesmente não faz.

Até que vai lá e faz.



Ontem eu resolvi jogar molho na comida. De tomate mesmo, desses prontos. Mas sou esse tipo de entojada que bate o molho pronto no liquidificador porque não suporta cebola. Então eu fui bater o molho no liquidificador. Insira aqui o meme do nada acontece, feijoada porque problema não foi aqui. O problema foi depois.

Eu não usei o molho todo, então fui guardar o resto num pote. Fui tirar a jarra do liquidificador que tinha o resto do molho, e aí, meus amores. A vida, essa coisa maravilhosa que às vezes decide que vai simplesmente acontecer.

Aí eu achei uma boa ideia apoiar o dedo no botão de ligar do liquidificador.

Que ligou.

Sem tampa.

Com molho dentro.


Tá, o gif é um exagero. O liquidificador ficou ligado por uns 3 segundos antes de eu perceber o que se passava e desligar a tempo de evitar uma desgraça maior. Respingos aconteceram na mesa, na parede, num vaso, na minha cara e no meu cabelo, mas nada de mais porque nem tinha tanto molho assim dentro. Só que isso não impediu que eu ficasse um tempo olhando pro liquidificador, pensando na situação, numa coisa meio
eu
não

crendo.

Agora eu fico paranoica, pensando qual vai ser a próxima estupidez que eu jurei que nunca ia fazer que eu vou fazer e querer depois arrancar minha própria língua de raiva.

A vida, essa desaplaudida.

A CABEÇA DO SANTO


›› autora: socorro acioli
›› editora: companhia das letras
›› ISBN: 9788535923698
›› número de páginas: 166
›› onde comprar: cultura | saraiva | amazon
compras feitas pelos links indicados geram uma pequena comissão ao blog
sinopse: sob o sol torturante do sertão do Ceará, Samuel empreende uma viagem a pé para encontrar o pai que nunca conheceu. Ele vai contrariado, apenas para cumprir o último pedido que a mãe lhe fez antes de morrer. Quando chega á cidade quase fantasma de Candeia, encontra abrigo num lugar curioso: a cabeça gigantesca de uma estátua inacabada de santo Antônio, que jazia separada do resto do corpo. Coisas extraordinárias começam a acontecer depois que Samuel descobre ter o dom de ouvir as preces e os segredos do coração das mulheres das redondezas, que não param de reverberar da cabeça do santo.

Já tinham me recomendado A cabeça do santo uns anos atrás dizendo que provavelmente eu ia adorar, mas por alguma razão qualquer acabei não lendo. O interesse acabou voltando, me deu um siricutico, comprei e ele ficou um tempão na estante até que criei vergonha na cara de ler. Se eu tivesse sido menos trouxa, teria lido antes. Quem me recomendou lá no começo tinha razão: adorei praticamente tudo.

De certo modo, o livro me lembrou um pouco um outro livro da mesma autora, Inventário de segredos, na ideia de que pessoas sempre escondem segredos. E todos os personagens de A cabeça do santo, em maior ou menor escala, têm alguma coisa a esconder que acaba vindo à tona por causa da chegada de Samuel à cidade de Candeia. Ele é o catalisador de todos os eventos que acabam mudando a vida de todos os personagens.

Gostei de como a autora lidou com essa parte de fantasia. Não espere grandes explicações: as coisas acontecem assim porque sim, e essa, pra mim, foi a graça da coisa. O motivo das vozes na cabeça do santo é o que menos interessa, mas sim a reação das pessoas. Religião é um tema bem presente na história, mas de forma leve e sem tom de julgamento. Todos os personagens tem algum propósito ali, e de alguns até queria saber mais. Não criei um amor tão grande neles, mas isso não é um defeito. É que me apeguei muito mais à história e seu desenvolvimento do que aos personagens, e isso não é um acontecimento tão anormal pra mim. Já aconteceu com várias outras histórias que gostei muito.

Até cheguei a colocar A cabeça do santo no post de livros que queria que virassem minisséries, porque essa foi exatamente a sensação que tive ao longo da leitura. Foi muito fácil imaginar como tudo aquilo ficaria ótimo na tv, numa coisa que me lembrou bastante O auto da compadecida e Lisbela e o prisioneiro. Também me pareceu o tipo de livro que seria legal pra ser usado em sala de aula. 

Acho que só encrenquei um pouquinho em dois pontos. O primeiro foi com os diálogos. Eles não são ruins, mas esperava um pouco mais de regionalismo presente. Isso aparece bastante nos cenários, mas achei que faltou nas falas. O segundo é com o final. Também não é ruim, mas não esperava que parasse naquele ponto específico. Não sei se isso pode ser considerado spoiler, mas por via das dúvidas vou botar o comentário em branco, quem quiser é só selecionar a frase: gostei bastante do final ser aberto e acho que não tinha como ser de outro jeito, mas algumas das perguntas que ficam podiam ter sido respondidas sem perder o efeito de final aberto, principalmente uma que confesso ter ficado meio "... poxa D:" por não saber qual o desfecho da situação. Mas esses dois pontos não são algum tipo de demérito da obra ou algo assim, são mais gosto pessoal mesmo. A cabeça do santo também me pareceu um ótimo começo pra quem quer conhecer o que a literatura nacional contemporânea tem a oferecer.

Comentários: série A Seleção (Kiera Cass)


O que me levou a ler A Seleção na época foi a premissa comparável a Jogos Vorazes encontra America's Next Top Model, mas eu estava mais interessada na parte ANTM da coisa. Lembro que comecei a leitura sem esperar muita coisa além de algo que me divertisse, e mesmo com alguns altos e baixos, a série acabou virando uma das minhas preferidas. Tem vestidos bonitos, sabotagem, barracos e me divertiu. Só preciso disso pra ser feliz.


Todos os comentários trazem alguns spoilers sobre os livros, mas acho que a essa altura do campeonato todo mundo (até quem não leu) já tem uma noção das coisas que acontecem. De qualquer maneira, fica aqui o aviso. As compras feitas pelos links indicados geram uma pequena comissão ao blog.


A SELEÇÃO
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Na época em que ele saiu por aqui, as pessoas ficaram confusas se era romance ou distopia. Considerando que a parte política dele é super secundária e quase não é desenvolvida fora daquelas informações necessárias pra se ter um contexto do que diabos tá acontecendo e porquê, desapeguei desse lado "distópico" e foquei naquilo que realmente me interessava: os vestidos, as brigas e os barracos. Não fiquei decepcionada nesse quesito. Meu maior problema com ele foi a falta de apego ao trio maravilha Maxon/America/Aspen. Gostei de alguns traços da personalidade da America e de algumas atitudes dela, mas Aspen achei um porre logo no começo e Maxon me pareceu meio banana. Não fiquei nada surpresa quando vi que a personagem que tinha ganho meu coração era Celeste, a selecionada malvada e esnobe. Uma coisa meio Regina George. Como não tive apego ao trio maravilha, acabei achando o romance meio chato, mas não foi nada que estragasse a experiência, até porque Kiera Cass é muito boa em te prender na leitura. E repito: vestidos, brigas e barracos. Não preciso muito mais do que isso pra ser feliz.

A ELITE
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Não entendi muito bem a insistência em tentar manter suspense em cima de quem America escolheria. Pra mim sempre foi bem claro que a escolha seria Maxon, então todas as partes de A Elite em que ela passa confusa sobre quem ama de verdade só me fizeram revirar os olhos. Celeste continuou de longe a personagem mais interessante pra mim, e Aspen continuou um porre tão grande e Maxon continuou um banana tão banana que comecei a shippar America e Celeste. Dei uma sofridinha pela Marlee, a selecionada melhor amiga da America, e por Carter, e taí um casal que não merecia ter sofrido daquele jeito. Nesse livro também dá pra ter uma ideia melhor da dinâmica do palácio, mas no geral a ideia que ele passa é bem de ponte entre o começo da história no primeiro livro e o fim no terceiro. Tive a impressão de que os acontecimentos dele podiam ter sido divididos entre o primeiro e o terceiro livro, transformando a trilogia em duologia. Mas talvez eu tenha essa impressão porque não comprei muito o romance do trio maravilha e não achei a indecisão da America convincente. De qualquer maneira, nada disso tornou o segundo livro ruim.

A ESCOLHA
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O plot político avança com uma maior participação dos rebeldes, mas sem tirar o protagonismo do romance. As selecionadas que sobraram começam a mostrar mais do que animosidade entre elas, surgindo um clima de amizade bem bonitinho que incluiu até Celeste!, e eu estava até que bem de boa com o rumo que as coisas estavam tomando. Então deu a impressão de que lembraram que o livro precisava terminar e decidiram resolver tudo - TUDO! - em 33 páginas. O final acabou ficando apressado, nenhuma explicação foi satisfatória, as soluções encontradas para alguns conflitos pareceram preguiçosas e fáceis demais. E eu nunca vou superar o que Kiera fez com relação à Celeste. Nada descreve meu ódio de ver uma personagem receber todo um arco de redenção pra no final das contas tomar um tiro no meio da testa e todo mundo esquecer disso 2 páginas depois. Entendi o que havia por trás da ideia de pelo menos uma das selecionadas morrer, mas fiquei com a má impressão de que a autora redimiu a Celeste só pra morte dela causar algum tipo de choque. O epílogo ser gasto em um pedaço do casamento de America e Maxon me pareceu meio desperdício, podiam ter feito disso um capítulo normal mesmo e usado o epílogo pra algo como "alguns anos depois". Terminei a trilogia bem insatisfeita.

A HERDEIRA
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Adorei a Eadlyn. Ela é arrogante mas ao mesmo tempo insegura em alguns momentos, além de ter plena consciência de suas capacidades e do fato de que vai ser rainha um dia. Achei que ela se encaixa bem naquele tipo de protagonista criada sem a pretensão de ser agradável. Aquele que a gente fica até meio puta quando percebe que tem coisas em comum. A ideia da seleção ser feita com 35 pretendentes homens à mão da princesa também foi ótima, principalmente pela má vontade inicial de Eadlyn a ter que se submeter a isso por achar que poderia muito bem ser rainha sem precisar de um rei. Uma pena que essa seleção acontece quase por chantagem emocional da personagem mais improvável possível, que acabou ficando completamente descaracterizada. Os selecionados "principais" (os que recebem mais destaque) foram bem escolhidos a ponto de eu desejar fervorosamente que a Kiera liberasse a Eadlyn pra casar com todos eles. Obviamente isso não ia acontecer, bem como a certeza da princesa de que não precisava de rei pra governar também não ia durar muito, mas considerando que esse livro precisava de romance, acabei meio que me conformando na marra. E assim como os 3 livros antecessores, todo mundo é extremamente hetero, e acho que aqui foi perdida uma ótima oportunidade de colocar pelo menos uma mulher na competição pela mão da Eadlyn (eu tenho na minha cabeça o headcanon de que a Eadlyn é bi, 'ces me deixem ser feliz). Achei boa a maneira como a Kiera apresenta a parte do peso da opinião pública (o povo não gosta da Eadlyn) pro jogo político.

A COROA
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Ao mesmo tempo em que gostei bastante de A Coroa, também não tenho tanta coisa pra falar dele. Continuei gostando muito da Eadlyn, ainda que a evolução da personagem não tenha ido na direção que eu queria, mas não podemos ter tudo na vida. Levando em consideração os rumos que a história obviamente tomaria, não dá pra dizer que não gostei. Tive a impressão de que parte desse livro foi mais ou menos o que A Elite devia ter sido, mas a dinâmica entre Eadlyn e seus meninos é bem mais interessantes que a de Maxon e as selecionadas. E eu continuei secretamente querendo que ela casasse com todo mundo. Ou que ficasse sozinha e pudesse governar sem rei. Obviamente nada disso ia rolar, e confesso que errei minha aposta sobre com quem ela ficaria no final (o que foi uma grande evolução se comparar com o quanto sempre foi óbvio pra mim que America ficaria com Maxon). Esse também foi o livro em que a autora lembrou que pessoas lgbt existem. No geral a série toda pecou MUITO nessa representação, que só foi aparecer mesmo quase a partir da metade de A Coroa e mesmo assim foi muito pouca e muito por cima, mas pra ser sincera eu não esperava muito mais do que isso. Não sei se é impressão minha ou algo meio "padrão", mas livros assim tendem a exalar heterossexualidade por todos os poros, então talvez seja por isso que desde o princípio eu já sabia que não podia esperar muita coisa nesse quesito. Fora isso, posso dizer que terminei A Coroa bem satisfeita com o final. Mas ainda não superei a Celeste. Provavelmente nunca vou.

FELIZES PARA SEMPRE
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Antes desse livro de contos foi lançado um chamado Contos da Seleção, que reunia os contosO príncipe e O guarda, e como a Kiera lançou outros contos depois, todos eles foram condensados num volume só, chamado de Felizes para sempre. Além dos pontos de vista de Aspen e Maxon, temos contos da rainha Amberly, da Marlee, de Lucy e cenas com a Celeste, além de um epílogo extra de A Escolha e um breve resumo do que aconteceu com algumas das selecionadas depois de A Escolha. Queria ver algo desse tipo com os meninos da Eadlyn. Mas esse é bem um livro extra mesmo, ler ou não vai depender mais do grau de curiosidade do leitor mesmo. É material extra, não exatamente necessário.


Livros que poderiam virar minisséries parte 2


Se na parte 1 escolhi livros que dariam minisséries de poucos capítulos e com uma temporada, nessa segunda parte peguei alguns que seguem a ideia de não precisar de orçamentos maiores que o PIB nacional mas que poderiam ser séries de mais de uma temporada.



A SELEÇÃO
Kiera Cass
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Eu sei que já tentaram umas 2 vezes, mas isso não muda o fato de que, se fizessem direito, daria uma série ótima. Os vestidos, as fofocas, a ♡ Celeste ♡ seria só darem tudo na mão da Kiera e deixar ela fazer o que quiser.

SÁBADO À NOITE
Babi Dewet
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Série adolescente que o fandom garante a audiência. Alô, Netflix.

SONATA EM PUNK ROCK
Babi Dewet
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Olha Babi aqui de novo. Eu sei que o nome da trilogia é Cidade da música, mas botei o Sonata por ser o primeiro livro. Mas vai dizer que você não assistiria uma série chamada Cidade da música. Eu assistiria. Alô, Netflix.

BOA NOITE
Pam Gonçalves
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Além do tema ser atual, acho que falta uma série de faculdade brasileira. E faculdade renderia pelo menos umas 4 ou 5 temporadas. Alô, Netflix.

BEAUTY QUEENS
Libba Bray
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Olha, se o público engoliu 1017878 temporadas de um monte de gente perdida numa ilha com fumaça preta e urso polar e que ainda por cima nem final direito teve, pode muito bem engolir algumas temporadas de um bando de candidatas adolescentes a miss que caíram numa ilha. Falta de sentido por falta de sentido, o livro da Libba pelo menos ia fazer todo mundo rir.

CONFISSÕES ON-LINE
Iris Figueiredo
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Esse (são 2 livros, daria pra estender até um pouquinho mais) na verdade eu queria ver não como série tradicional, mas como websérie, no estilo The Lizzie Bennet Diaries. O que faz todo sentido, já que a personagem principal é youtuber.

COMO EU REALMENTE...
Fernanda Nia
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Mais um que eu queria ver num formato que não fosse o tradicional. Pensei em algo inspirado naqueles videos curtinhos da Mônica Toy, de menos de 1 minuto. Ia dar certinho pra colocar as tirinhas nesse formato.



menções honrosas no twitter
A batalha do apocalipse (Eduardo Spohr)
Além-mundos (Scott Westerfeld)


Livros que poderiam virar minisséries parte 1


Eu fiquei muito louca com a minissérie de Dois irmãos. Não por ser fã da história (não sou, li a HQ e gostei bastante mas não li o livro), mas por saber que ela tinha potencial pra virar algo legal na tv, se não pelo texto, pelo visual. E realmente, gostei muito do resultado e foi com muito autocontrole que não fui tretar no twitter por causa da relação da Zana e do Halim com os filhos. Aliás, se tem uma coisa em que a Globo sempre capricha é nas minisséries. E num mundo em que a Globo consegue fazer minisséries lindas visualmente e a Netflix é empenhada em fazer coisas legais, fiquei olhando pra estante e pensando quais livros ali dariam projetos legais. Levei em consideração livros que poderiam render adaptações pra uma temporada só sem precisar de orçamentos em que todo mundo tenha que vender a alma pro the monio pra fazer acontecer. A parte 2 um dia sai.


VAMOS FAZER DE CONTA QUE ISSO NUNCA ACONTECEU...
Jenny Lawson
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Um dos meus livros preferidos (resenha aqui), Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu... daria uma comédia maravilhosa com narração estilo Todo mundo odeia o Chris. Também teria pitadas de drama nos momentos mais ansiosos da vida da Jenny. CHAMEM A PRÓPRIA JENNY LAWSON PRA ISSO!

DIAS PERFEITOS
Raphael Montes
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Ia dar um policial/thriller psicológico sensacional (resenha do Nem Um Pouco Épico aqui). O final ia dar altas tretas e problematizações no twitter. Certeza que ia parar nos trending topics.

LUA DE VINIL
Oscar Pilagallo
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Apesar de não ter rolado química com o livro (resenha aqui), consigo imaginar uma minissérie bem boa com ele, até por ter a ditadura como plano de fundo. Sem contar que as descrições de coisas e lugares que no livro pra mim não rolou, ficariam ótimas numa minissérie.

NADA DRAMÁTICA
Dayse Dantas
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Minha minissérie adolescente passada no Brasil (resenha do Nem Um Pouco Épico aqui). Todo mundo ia se identificar, seria SUCESSO e a autora podia fazer um cameo meio tipo o Stan Lee.

O HISTÓRICO INFAME DE FRANKIE LANDAU-BANKS
E. Lockhart
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Mais um que daria uma minissérie adolescente sensacional (resenha aqui), envolvendo sociedades secretas e protagonista sendo maravilhosa.

A CABEÇA DO SANTO
Socorro Acioli
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Comecei a ler já pensando em como a história ficaria maravilhosa numa coisa meio O Auto da Compadecida (resenha em breve). Onde começa a petição online pra isso acontecer?

MENTIROSOS
E. Lockhart
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Mais uma minissérie adolescente mas dessa vez com toques de mistério do tipo MAS AFINAL DE CONTAS O QUE DIABOS ACONTECEU? (resenha do Nem Um Pouco Épico aqui). As redes sociais entrariam em guerra por causa dos spoilers.


menções honrosas via twitter
O cortiço (Aluísio de Azevedo)
Depois daquela viagem (Valéria Polizzi)
Souvenir (Therese Fowler)
Cem anos de solidão (Gabriel García Márquez)
Qualquer livro da Rainbow Rowell
Sergio Y. vai à América (Alexandre Vidal Porto)


Que livros vocês gostariam que fossem adaptados como minisséries?

Advil!!! on Ice


Daí que por esses dias eu acordei com dor de cabeça e fui caçar o comprimido de Advil nosso de cada dia. Só que eu não tinha comido nada ainda, e uma das poucas coisas nessa vida que eu realmente aprendi é que tomar remédio de estômago vazio (a não ser que seja exigência da bula) vai dar ruim. E como eu tinha acordado depois do almoço, resolvi fazer macarrão e tomar o Advil depois. Deixei o comprimido em cima da mesa e fui pegando tudo que eu precisava pra poder cozinhar.

Pelo menos eu achava que era isso que eu tinha feito.

Macarrão pronto, macarrão comido, hora do remédio... cadê? Comprimido sumiu. Eu tinha certeza que não tinha tomado, a dor de cabeça tava lá pra me lembrar disso. Mas eu também tinha certeza que tinha deixado o comprimido na mesa. Não tava no meio da toalha de mesa, no guardanapo, nem no chão, então só assumi que ele tinha sublimado, peguei outro e a vida segue.

Aí hoje eu resolvi pegar sorvete.

Abri o congelador.

Dessa vez tinha sorvete.

E o Advil perdido.

Em algum momento do processo de pegar as coisas pra fazer macarrão eu achei que era lógico e natural deixar o comprimido dentro do congelador.

Abrir a geladeira aqui em casa a partir de agora vai ser uma aventura. Vai saber o que eu posso ter largado lá dentro.


BINTI


›› autora: nnedi okorafor
›› editora: tor
›› formato: ebook (kindle)
›› ASIN: B00Y7RWXHU
›› número de páginas: 96
›› onde comprar: cultura | amazon
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sinopse: Binti é a primeira da tribo Himba a ser aceita na universidade Oomza, a maior instituição de educação superior da galáxia, mas para isso terá que viajar mesmo à revelia da família e entre desconhecidos que não necessariamente respeitam seus costumes. Mas a viagem não será fácil, pois Oomza há muito tempo fez algo que irritou os Meduse, que agora querem retribuição.

Um dia, a Tassi me recomendou Binti. Um outro dia, ela recomendou de novo, o ebook estava em promoção, comprei, acabei deixando para aquele "depois" que nunca chega, basicamente o destino de todos os meus ebooks. Até que meu 2016 livrístico foi meio cagado, e pra 2017 resolvi colocar em prática outras metas de leitura que não fossem numéricas. Uma delas era ler mais ebooks (eu tenho que botar esse kindle e esse kobo pra sambar). A outra era ler mais autoras negras. Binti era, então, a escolha perfeita, porque além de tudo ainda vinha com o selo Tassi de aprovação, e alguém que já tinha me recomendado a Claire Legrand e a Jenny Lawson obviamente só ia recomendar coisa boa. E eu realmente precisava que 2017 começasse com alguma leitura legal.

Binti encaixou certinho no que eu precisava, ainda tendo o bônus de ser um gênero que eu tenho interesse porém não costumo ler muito (ficção científica) e num formato que também leio pouco (novela). A maneira como Nnedi Okorafor cria as cenas é sensacional, é tudo tão vivo e detalhado mesmo em poucas páginas, e todas as descrições e explicações são feitas na medida certa e nos momentos certos. Mas o grande destaque é mesmo a protagonista, Binti.

Amei tanto a Binti que nem sei lidar. Vinda de uma tribo altamente tecnológica mas profundamente enraizada em seu lugar de origem (os Himba não saem de suas terras, nunca, jamais, em hipótese alguma) e em seus costumes, ela passa a história num conflito de identidade. Ao mesmo tempo em que respeita e faz questão de reproduzir esses costumes por ter orgulho deles e do que representam, também tem vontade de um algo mais que, nesse momento de sua vida, toma a forma da universidade Oomza. Ela vai ser a primeira de seu povo a frequentar Oomza, mesmo à revelia de sua família. E ela entra de cabeça sozinha num mundo desconhecido e possivelmente hostil a ela por causa de sua origem.

Uma foto publicada por mareska (@mareskawho) em

Muitas são as cenas em que Binti se sente desconfortável com os olhares e comentários que recebe das pessoas ao seu redor, por causa de suas roupas, do otjize que espalha em seu corpo e cabelos, por ser uma Himba num mundo dominado por Khoush. O que é interessante, porque ao mesmo tempo em que ela entra num mundo permeado por seres diferentes e dos mais variados planetas quando entra no transporte que a levará junto com outros estudantes até Oomza, ainda assim é vista e tratada como uma estranha. Os Khoush dependem da tecnologia dos astrolábios criados pelos Himba, mas ainda os tratam como cidadãos de segunda classe, Difícil não comparar com a nossa realidade. Binti sente de maneira intensa esse conflito interno entre querer manter as tradições e ao mesmo tempo abraçar o desconhecido. E ela encara tudo isso de maneira incrivelmente corajosa.

Outro destaque é a forma como Nnedi apresenta os Meduse e a maneira como esse povo e Binti interagem. É quase um choque de culturas e pensamentos, e é interessante a discussão que se pode fazer a partir disso sobre a visão que temos sobre "o outro".

Alguns (poucos) pontos da história mais perto do final acabaram me deixando um pouco UÉ?, mas nada que me impedisse de gostar da leitura; foram só coisas que eu achava que tomariam um caminho diferente.

É uma pena que Binti não esteja disponível em português, mas o ebook não é caro e vale muito a pena! Sem contar que TEREMOS CONTINUAÇÃO, mas podem ficar tranquilos que Binti tem um final satisfatório. Recomendo a leitura dessa análise do livro, mas já deixo o aviso de que está cheia de spoilers.