PLAYLIST: AS MINA DO INDIE

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Essa versão do diálogo tá resumida, não dá pra lembrar todos os detalhes porque a conversa foi há muitos meses e teve esta que vos escreve usando uns termos muito mais abstratos e bizarros pra conseguir definir o que eu queria dizer. Sério, ainda bem que meu irmão captou o recado, porque até hoje eu não sei como eu consegui me fazer entender. Até aspas com os dedos eu fiz.

- Mas essas bandas que você escuta é sempre só homem mesmo?
- Quais bandas.
- Essas que mais diferentinhas. Alternativa? Indie? Hipster? Não sei qual o termo agora?
- Vai indie. 
- Isso. É tudo sempre só homem branco de calça skinny? Não tem mulher no meio?
- Tem várias.
- Eu conheço alguma? Não consigo lembrar.
- Eu vou procurar algumas pra te mostrar.
- Monta uma playlist pra mim então. Bandas indie que tenham mulheres.
- Vocalistas ou pode ser também guitarrista e tals?
- Pode ser integrante da banda, não necessariamente vocalista. Se tem mina tocando ou cantando, tá valendo.

Taí o resultado!


Resumo do diálogo tido assim que a playlist ficou pronta:

- Ficou ótima, mas tipo, como essas bandas são formadas pra ter sempre só uma mulher ou no vocal, ou em algum instrumento, mas sempre uma só? É por cota?
- Olha, na maioria das vezes costuma ser gente que já se conhecia, de faculdade ou de algum curso de música, ou de bar, aí vai se juntando.
- Mas fora uma ou outra aí tipo Haim e Copacabana Club, é sempre só uma. É meio coincidência demais.
- Dá pra deixar ainda mais triste. De todas que eu já ouvi e conheço, músicos negros tem ainda menos. Metronomy tem um negro e uma mulher branca.
- Olha, preencheu duas cotas!

Fora as que constam na playlist, alguém mais lembra bandas indie (ou que podem ser consideradas indie) com pelo menos um integrante negro ou negra? Meu irmão, depois de rachar muito a cabeça, lembrou de Massive Attack, TV On The Radio  e Block Party.

GATA GAROTA

›› autora: fefê torquato
›› editora: nemo
›› ISBN: 9788582861356
›› onde comprar: saraiva | cultura | amazon | submarino
›› livro enviado de cortesia
compras feitas pelos links indicados geram uma pequena comissão ao blog
sinopse: Gigi (…) descende de uma família de gatos-gente, únicos de sua espécie, até onde se sabe… (…) Neste volume, Gigi enfrenta problemas cotidianos, como roubar assentos alheios, torturar insetos por horas, conviver com a líder da família, Fefê – que pode ou não estar enlouquecendo – e com o ciúme de seu namorado, Danilo, que desconfia não ser o único. Pare o que estiver fazendo e leia esta série. Tem gatos.

Quando a Nemo anunciou o lançamento de Gata Garota eu já fiquei em estado de alerta porque gatos. Nem sabia do que se tratava, qual era o clima da história, quem era a autora, mas tinha gato no título, então obviamente essa HQ ser ruim não era uma opção. Algum tempo passou, chegou em casa uma caixa da editora. Com a caixa no colo e tentando em vão abrir só com as mãos (quem já recebeu caixa de livro pelo correio sabe a quantidade de fita adesiva vem no negócio), meu cérebro achou que era uma boa hora pra tornar a frase “pra que faca e tesoura se eu tenho DENTES” algo coerente e lógico, então fui loucamente rasgando a caixa e quase perdi os dentes no meio do processo. Mas o importante é que, entre as HQs que vieram, estava Gata Garota, da Fefê Torquato, e como toda pessoa controlada e que tem noção de prioridades na vida, larguei o que estava fazendo (eu nem lembro o que eu estava fazendo!) e fui ler. Inclusive atualmente eu perdi as contas de quantas vezes já reli.

Um vídeo publicado por mareska (@mareskawho) em



Já foi paixão à primeira vista na sinopse, que descreve um pouco da Gigi, a protagonista: “Gigi é uma garota que passa metade do seu tempo dormindo, a outra metade comendo e o dia inteiro entediada”. Eu sou Gigi e Gigi sou eu, e depois de ter sentido essa conexão espiritual quase imediata com ela, comecei a ler.

A HQ começa num tom meio sério, falando sobre a noite e seres misteriosos, e o primeiro episódio é basicamente a Gigi sentada na pia do banheiro em sua forma de gata, derrubando um copo sem nenhuma razão aparente, com aqueles olhos de gato do Shrek, enquanto o namorado dela só suspira, frustrado.


Não existe vocabulário suficiente pra expressar minha paixão por essa HQ gente, socorro. Ela simplesmente derruba o copo porque gatos derrubam copos sem motivo aparente, por puro tédio, eu sei que falando assim vocês devem estar me olhando com a cara que o namorado da Gigi fez quando ela derrubou o copo, mas tenho certeza de que quem tem gatos (ou passa parte do tempo vendo videos e gifs de gatos na internet) vai entender porque é que eu dei tanta risada em tipo 3 quadrinhos.

A maneira como a autora conseguiu botar a personalidade de gato na Gigi em situações comuns é maravilhosa. Eu lia e ficava rindo porque MEUS GATOS FAZEM TUDO ISSO. Roubam lugares dos outros, ficam rondando pedindo comida até você botar pra eles, pedem carinho depois arranham porque sim, param de prestar atenção quando você está falando com eles. A Gigi faz tudo isso, gente. É sensacional. E como se não bastasse esses episódios maravilhosos apresentando a personagem, tem a trama da história, que não dá pra falar muito senão vou acabar soltando spoiler, mas já tô sofrendo pelo meu ship Danigi (desculpa gente, não consegui achar outro nome). Mas basicamente envolve famílias de gatos e suas lideranças e gatos-gente misteriosos.

Vale MUITO a pena visitar o tumblr com as aventuras da Gata Garota, não só porque ❤ Gigi❤ mas porque alguns quadrinhos são em gif e meu deus é muito amor. Também vale a pena seguir a autora nas outras redes sociais dela, principalmente o instagram, o canal no youtube e o snapchat (fefetorquato). A HQ tem um formato comprido e por ser toda em preto e branco com esses ruídos em cinza, de tanto reler, acabei deixando marcas das minhas digitais pelo livro todo mas O LIVRO É MEEEEEEEEEEEU EU MARCO O QUE EU QUISEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEER!

Tem gatos, gente. Não dá pra ser mais maravilhoso. Obrigada Fefê Torquato pela existência da Gigi ❤



outras resenhas

Isabelle no Delirium Nerd
Larissa no Inspiration Box


PLAYLIST: OS MLK SÃO DENGOSO


Esses últimos dias NÃO ESTÁ SENDO FÁCIL para os fãs de One Direction e eu sei o quanto é desesperador ver a possibilidade da sua boyband ir cada um pra um canto, então quando meu irmão (recém adepto do Spotify) disse que ia criar uma playlist com as melhores músicas deles, pensei que seria um bom momento de roubar essa playlist em que ele escolheu as músicas que mais gosta dos cds e as mais conhecidas e fazer um post em homenagem. É uma boa oportunidade pra quem torce o nariz pra banda dar uma chance pras músicas.

E lembrem-se: se o pior acontecer, depois de anos Backstreet Boys fez um lindíssimo comeback com shows tão esgotados que tiveram que fazer um extra. TENHAM FÉ.

Toda a maravilhosidade de Steven Universe


Já tinha visto muito sobre Steven Universe pelo tumblr: gifs fofos, gifs engraçados e muitos posts altamente passionais sobre o desenho - além de muitos elogios, mas nunca tinha me animado muito pra assistir. Eu já tenho uma preguiça enorme de acompanhar seriados e filmes que realmente quero assistir, imagina assistir um desenho só por curiosidade. Achava que minha época de acompanhar desenhos tinha acabado com os animes que eu assistia quando era mais nova, ainda que esse ano eu tenha reassistido Yu Yu Hakusho e Guerreiras Mágicas de Rayearth, e estivesse quase começando a rever Sailor Moon. Mas Steven Universe não estava nos planos, até que a curiosidade foi mais forte e resolvi dar uma chance. Um amigo me ajudou pelo twitter a encontrar uma maneira de assistir e lá fui eu. Os episódios eram curtos, mais ou menos 11 minutos cada, achei que assistiria alguns e ia acabar enjoando.

Assisti 93 episódios em 3 dias, sendo que quase 50 deles foram seguidos.


STEVEN UNIVERSE, desenho criado por Rebecca Sugar, leva o nome do protagonista (Universe é o sobrenome dele). Steven faz parte das Crystal Gems, que são guerreiras intergaláticas com poderes que vêm das pedras preciosas que são parte do que elas são e cuja missão é proteger a Terra. Garnet (granada), Amethyst (ametista) e Pearl (pérola) são gems, enquanto Steven é meio humano e meio gem, filho do relacionamento entre o humano Greg Universe e a crystal gem Rose Quartz (quartzo rosa). Para que Steven pudesse nascer, Rose, que era a líder das crystal gems, abriu mão de sua forma física, e Steven nasceu carregando sua pedra em seu lugar. Para aprender a lidar com seus poderes e desenvolvê-los, Steven mora com as gems na praia da cidade de Beach City, enquanto seu pai mora no centro da cidade e trabalha num lava-rápido.

Povoada por habitantes bem únicos, altas coisas muito loucas acontecem em Beach City além das aventuras pelas quais as gems e Steven passam. Principalmente porque a situação de Steven é única, então nem Greg nem as gems sabem exatamente o que pode acontecer conforme os poderes de Steven vão se desenvolvendo. Com milhares de anos de idade, elas ensinam a ele aos poucos tudo o que sabem sobre ser uma gem e tudo que isso envolve, mas o aperfeiçoamento dos poderes dele é um aprendizado tanto pro Steven quanto pra elas.

E é essa uma das grandes maravilhosidades de Steven Universe.

OS PERSONAGENS
Todas as personagens têm personalidades bem desenvolvidas, bem naquilo que ninguém poderia definir melhor do que Shrek com sua metáfora de ogros e camadas. Se a princípio cada gem parece ter um traço mais forte de personalidade que poderia cair naquele clichê unidimensional (Garnet é séria, de poucas palavras e quase sem expressão facial por causa dos óculos escuros, Amethyst é completamente alucinada e sem noção e Pearl é prática e maníaca por organização e ordem), quando a trama vai se desenvolvendo e fui conhecendo mais sobre o passado delas e os laços que as unem entre si e com Steven, percebi que Steven Universe possui mais desenvolvimento de personagem do que muitos livros, séries e filmes que já vi.

A lealdade de Pearl e a relação que ela tinha com Rose Quartz sendo passada pra sua superproteção com Steven, o passado complicado de Amethyst resultando em seus problemas de autoestima e de entender seu lugar no mundo e entre as crystal gems, a própria Garnet e quem ela é, Greg e seu jeito otimista e doce de saber que existe um limite no que ele pode fazer e ensinar a Steven e seu respeito pelas gems e seus afazeres, e o próprio Steven, vivendo da melhor maneira possível com uma família nada usual e sabendo de todo o peso que ter a gem de sua mãe carrega, e ainda sem saber exatamente o que o futuro lhe reserva, mas sem perder aquele ar de quem fica 24 horas por dia maravilhado com tudo que acontece.


Sem contar as fusões. As gems, em casos de grande necessidade, podem se fundir, formando assim, pelo tempo que for preciso, outras gems. E essas outras gems têm nomes próprios e personalidades próprias, que contém traços das personalidades das gems que se fundiram. Da fusão de Garnet com Amethyst, por exemplo, resulta a Sugilite, que é gigantesca mas perde o controle e se torna violenta com facilidade. A fusão de Garnet, Amethyst e Pearl resulta na Alexandrite, que é ainda mais gigantesca, com seis braços e uma confusão das personalidades de todas as envolvidas. E tem outra fusão em especial que é a melhor de todas, mas não sei qual o grau de spoiler que isso seria considerado.

Isso resulta em episódios divertidos e quase absurdos, mas também em episódios extremamente emocionais e com temas não muito fáceis de lidar. Como o episódio em que Steven começa a se achar velho demais para comemorar aniversário e começa a envelhecer de verdade, e as gems finalmente se tocam de que como Steven é meio humano, vai envelhecer, e elas têm que lidar com o fato de saberem que, um dia, ele vai morrer. Ou o episódio em que o passado de Garnet e quem ela é é explicado. Eu não esperava encontrar tudo isso em um desenho com 11 minutos por episódio.

E isso tudo não acontece só com as crystal gems e o núcleo do Steven. Todos os habitantes de Beach City ganham o mesmo grau de desenvolvimento, aprendizado e cuidado com as histórias, independente de ser um personagem regular ou que aparece só uma ou duas vezes. Cada um deles têm uma história única, e o desenho faz questão de deixar isso bem claro.

A TRAMA

Inicialmente, as crystal gems são apresentadas como as responsáveis por proteger o planeta de possíveis ameaças causadas por fragmentos que podem causar ou só uma enorme bagunça, ou uma destruição em potencial. A origem delas é o distante planeta Homeworld, mas por algum motivo, elas residem na Terra e nunca podem voltar pra lá.

A trama vai sendo apresentada aos poucos ao longo dos episódios. Aprendemos porque elas estão na Terra e porque não podem voltar, o que são os fragmentos que elas derrotam e guardam dentro de bolhas protetoras. Ficamos sabendo sobre a rebelião, a guerra e o que resultou dela e como cada lado lutou e pelo quê. Outras gems vão aparecendo, mostrando que o futuro da Terra pode depender de muito mais do que a defesa das crystal gems pode oferecer.

Não quero dar muito spoiler porque uma ou outra coisa eu sabia por causa do Tumblr, mas Os Grandes Problemas eu não tinha nem ideia e foi uma boa decisão não ter ido atrás de saber mais sobre antes da hora. E olha que quem tá falando isso é alguém que tem por costume caçar spoilers por vontade própria. Mas isso não quer dizer que ler mais detalhes sobre a trama possa estragar a experiência de assistir ao desenho, de repente saber o que acontece pode aguçar mais a curiosidade sobre a história. O que adiantei aqui já dá pra ter uma noção, e garanto que ela é mais complexa do que parece. Quem tiver interesse e souber inglês pode fuçar na wikia sobre o desenho, lá tem todos os spoilers.

A REPRESENTATIVIDADE

Temos famílias compostas por pai, mãe e filha, e também por mãe, filhos e padrasto, ou pais, filhos e avó, ou mãe e filha, ou pai, filho e três gems, e todas elas são tratadas como válidas e maravilhosas em suas qualidades e problemas. Existe inclusive um episódio em essa coisa da obsessão pela "normalidade", pela família nuclear e tradicional, é questionada e desconstruída.

Temos diversidade de corpos e etnias: tanto humanos quanto gems são altos, baixos, magros, gordos, cabeludos, carecas, jovens, velhos, brancos, negros, e seus corpos não são usados como motivo de piada ou punchline. Padrão de beleza é um negócio que não tem vez aqui.

Temos personagens femininas maravilhosas e nada de estereótipos de gênero. As mulheres de Steven Universe vão desde médica e dona de casa até pequenas aprendizes de espadachim. Steven não é criado na base do "isso é de menina e isso é de menino" e é sensível como seu pai Greg, que tem um respeito enorme pelas gems e pelo trabalho delas e sabe exatamente quando pode e quando não pode dar palpite nisso.

Aliás, apesar das gems serem ditas como não tendo gênero, suas vozes são femininas, assim como suas formas humanoides. E nisso temos a relação entre Pearl e Rose, entre Rubi e Sapphire. E a fusão, que só acontece de forma bem sucedida quando as gems envolvidas estão em perfeita sintonia mental, se dá através de danças em sincronia que fica quase impossível de não ver quando rola um flertezinho no meio. Ou seja, também não têm heteronormatividade.

Achei esses três textos aqui que são ótimos pra ler mais sobre represetatividade em Steven Universe:
Assista: Steven Universe
Sobre Steven Universe e representatividade
Steven Universe e a representatividade

OS SHIPS

São muitos e são muitas as possibilidades. Dá pra todo mundo ser feliz. Se joga.


Agora dá pra aproveitar que os episódios voltam hoje e fazer maratona <3






Não sei ficar doente parte 2: embalagem de antibiótico não é comestível


Depois do médico ter me garantido que não, eu não ia morrer por garganta inflamada, comprei o antibiótico e o antialérgico (aproveitei e reabasteci meu estoque de remédios pra dor de cabeça) e fui pra casa cometer mais um erro: ler a bula. Costumo ler sempre por masoquismo (a parte das reações adversas sempre me deixa meio em pânico), mas dessa vez a coisa parecia ser realmente útil porque quando abri o antibiótico tinha um pacotinho bem pequenininho de alguma coisa dentro, junto com os comprimidos. Mas na bula não tinha nenhuma menção àquilo, nada indicando como nem se deveria ser tomado, então deixei pra lá. Na receita o médico já tinha deixado certinho como eles deveriam ser tomados, então se ele não tinha dito nada fora de comprimidos, estava tudo bem, não é?


Eu tinha esquecido o tamanho que um comprimido de antibiótico tem. E o tamanho de um antialérgico. E é claro que, acostumada a tomar dois remédios pequenos juntos (a pílula e a paroxetina), eu tentei meio que por memória muscular engolir os dois ao mesmo tempo.

A minha sorte é que o antialérgico era só pra 3 dias, então não deu tempo de cometer o mesmo erro de novo. Pois não duvide, se fosse mais tempo, ele se repetiria. Sou dessas.

Mas a garganta ia melhorando, a dor de ouvido passou em dois dias, meu nariz é eternamente entupido logo não faz diferença mesmo, era pra tudo estar correndo bem. Se eu não tivesse começado a tossir como se meu corpo estivesse rejeitando meu pulmão. É tipo aquela ideia de que encanador conserta os canos ferrando com a fiação, mas nesse caso eu estava resolvendo um problema de saúde enquanto meu corpo encontrava outro pra colocar no lugar.

meu corpo tentando resolver as coisas
Já perto do final do tempo do antibiótico, comecei a achar muito estranho que a tosse não sumia de jeito nenhum e a garganta, apesar de bem melhor, ainda não tinha parado completamente de doer. Por um desses motivos que talvez no dia do juízo final deus me conte a razão de ser, eu associei isso com o tal pacotinho e cometi mais um erro: fui jogar o nome do remédio no google. Encontrei algumas informações sobre ele em comprimido e em pó, e então três coisas passaram pela minha cabeça:
1) era pra eu ter tomado aquele pacotinho
2) eu não tinha tomado o pacotinho, logo o antibiótico não ia funcionar direito
3) eu ia morrer
Li páginas e mais páginas falando sobre as duas versões, mas nenhuma dizia exatamente como eu deveria tomar ele em versão comprimido E em pó. Aí fiquei desesperada, acendi as luzes da casa e fui acordar minha mãe pra avisar que não estava tomando o antibiótico direito sem querer e ia morrer.

Tudo isso era duas da manhã.

Depois de ter escutado algo como "EU NÃO VOU LIDAR COM ISSO ÀS DUAS DA MANHÃ", decidi que ia tomar o que tinha no pacotinho com água mesmo e que deus tivesse piedade da minha alma.

Só que antes eu resolvi fazer o que devia ter feito desde o começo: eu li o que estava escrito naquele pacotinho do tamanho de metade do meu dedo mindinho.

Não
era
remédio.


Era só um pacotinho embalado pra absorver qualquer possível umidade dentro da embalagem do antibiótico. Inclusive estava escrito em vermelho que não era pra comer. Tipo dessecante. E foi assim que eu quase comi um componente de embalagem de antibiótico.

Ficar doente é muita emoção. Eu nunca sei se a possibilidade de morrer é maior por causa da doença ou por minha própria culpa mesmo.

Não sei ficar doente parte 1: não sei não achar que vou morrer no consultório médico


Não sei ter dor de garganta sem quase morrer no processo: toda vez que acontece, é caso de ir pro hospital e tomar antibiótico. Era de se esperar que aos 30 anos eu já teria aprendido isso, mas aprender com meus próprios erros é um negócio que acho que nessa encarnação não vai rolar.


Garganta doeu no primeiro dia, achei que só pensamento positivo ia resolver. Fiquei surpresa quando não resolveu.

Garganta doeu no segundo dia, fiz o que qualquer pessoa sensata faria: fui pedir ajuda no twitter de receitas de vó. Tentei a do leite com canela (ficou horrível, odeio canela fora de bolinho de chuva) e a do gargarejo com água e sal (engoli a água sem querer, não foi legal). Resolveu por meia hora.

Foi preciso chorar de dor de madrugada pra resolver fazer algo decente a respeito, então minha mãe me acompanhou ao hospital. A essa altura doía também o ouvido e o nariz entupia aleatoriamente. Obviamente eu estava morrendo.


Não precisou de nem dois minutos pro médico constatar que sim, minha garganta estava loucamente inflamada, mas não, não era nada grave. Até aí tudo ótimo, mas é claro que não ia ficar assim por muito tempo.

Eu sou uma pessoa meio sugestionável em determinadas situações. Uma delas é consultório médico. E também sou meio paranoica e tenho uma certa tendência a achar que todas as doenças que eu tenho invariavelmente virarão coisas graves e eu vou morrer. É involuntário. Uma vez achei que meu nariz escorrendo era líquido do cérebro saindo pelo nariz. Já chorei e tive crise de ansiedade de madrugada porque estava com dor de cabeça e resolvi pesquisar como era uma tomografia e cheguei à conclusão de que nunca ia conseguir entrar naquela máquina porque tenho medo de espaços pequenos então o tumor que eu potencialmente poderia ter no cérebro não seria descoberto nunca e eu ia morrer.

Então quando o médico resolveu examinar meu ouvido e perguntou se algum dos dois doía mais que o outro, senti todo o sangue fugir da minha cara. Porque eu não via diferença.


Os dois doíam igual. Tinha alguma coisa errada nisso? Era pra um estar doendo mais que o outro? Isso significava alguma coisa? Tinha um inflamado e o outro não? Eu ia ficar surda? Eu ia morrer?

"... eu não vejo muita diferença... acho que o direito?"
"Seu ouvido esquerdo tá um pouquinho afetado pela inflamação da garganta."

Pronto. Errei qual ouvido estava doendo mais. Eu devia ter ficado quieta. E se eu estiver perdendo a sensibilidade no ouvido? E se eu estiver perdendo a capacidade de diferenciar direita de esquerda? E se o médico achar que eu tô mentindo, não receitar nada, eu voltar pra casa e morrer dessa coisa obviamente grave que eu tenho na garganta e no ouvido? E se não for nada grave, ele não receitar nada, eu voltar pra casa e de repente virar algo grave? Eu ia morrer?

Não era nada grave e ele receitou os remédios que precisava, entre eles um antialérgico e um antibiótico. Antialérgico por 3 dias, antibiótico por 7. Era pra ser bem simples.

Não foi, mas isso fica pro próximo post, quando eu explicar como eu quase comi um componente da embalagem do antibiótico sem querer. Vai vendo.


3 livros para ler Mia Couto


 Eu li Mia Couto pela primeira vez por indicação, e acho que foi uma das mais acertadas que já me deram.

Mia couto nasceu em 1955, na Beira, Moçambique. É biólogo, jornalista e autor de mais de trinta livros, entre prosa e poesia. Seu romance Terra sonâmbula é considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Recebeu uma série de prêmios literários, entre eles o Prêmio Camões de 2013, o mais prestigioso da língua portuguesa, e o Neustadt Prize de 2014. É membro correspondente da Academia Brasileira de Letras.






Inclusive queria saber falar melhor sobre ele, mas nesses momentos sempre me dá um sério problema de falta de léxico, talvez porque pra mim a escrita dele é muito mais algo de sentir do que explicar. E o que eu consigo sentir é que
É
TUDO
MUITO
BONITO.

Eu tenho a impressão de que ele conseguiria transformar uma receita de bolo na coisa mais poética e delicada do mundo. A mistura de real com fantástico, os jogos de palavras, os trocadilhos. Dá uma olhada nesse trecho de um dos contos de Estórias abensonhadas, que por sinal é um dos 3 livros que quero indicar:

Primeiro, faz o seguinte; o doutor junta no peito não aquela imediata e justificada tristeza. Faz muito mal chorar uma tristeza de cada vez. Em cada momento a gente tem que chorar todas as tristezas de todas as vida. É preciso chamar as antigas amarguras, juntar todas aflições. Faz conta construímos um dique, grande, para estancar as águas. Aqui, está a ver? Deixe-me pôr a mão no seu peito. Vá. Desabotoe a camisa, doutor. Sim, aqui. É aqui que vão inchar os afluentes e rios e começar uma inundação. De repente, o senhor vai ver: tudo se rebenta e águas jorram. O choro é uma paixão: a gente acaba e estamos cansados, como os corpos que fizeram amor.

Precisa falar mais alguma coisa?


ESTÓRIAS ABENSONHADAS
Companhia das letras
capa antiga: cultura | saraiva | submarino | amazon
capa nova: cultura | saraiva 

Coloquei aqui a capa antiga porque é o exemplar que eu tenho. São ao todo 26 contos que se passam no período após os quase trinta anos de guerra em Moçambique. As histórias são curtas e com jeito de cotidiano, como se o leitor fosse convidado a presenciar pequenas cenas da vida daquelas pessoas. Talvez eu esteja sendo meio influenciada pelo fato desse ter sido o primeiro livro que li dele e por ter gostado tanto, mas acho que a melhor maneira de ter um primeiro contato com a escrita do Mia Couto é com esse livro. Se tiver alguma dúvida, só reler a citação lá em cima. Ou dar uma olhada nessa resenha aqui, que fala bem melhor sobre esse livro do que eu. Eu só sei dizer que é bonito e que todo mundo devia ler e dar de presente pras pessoas que gosta.

A MENINA SEM PALAVRA
Boa companhia
cultura | saraiva | submarino | amazon

"NOSSA, MAS OUTRO DE CONTOS???" gente, pega na mão de deus e vai com fé. Esse é uma antologia de contos que foram escritos em vários momentos diferentes da vida do Mia Couto, todos eles retratando o universo infantil de Moçambique. Do próprio site da editora: "As histórias selecionadas mostram a complexidade que move as relações familiares, a orfandade em um país que viveu por anos em guerra, a realidade das crianças submetidas ao trabalho infantil e os resquícios da luta pela independência.". São 17 contos ao todo. Eu dei uma choradinha em um ou outro, porque todo mundo sabe que qualquer tipo de sentimento é sempre potencializado quando os protagonistas da história são crianças. E também é uma boa escolha pra conhecer Mia Couto.

A CONFISSÃO DA LEOA
Companhia das letras
capa antiga: cultura (ebook) | saraiva | submarino 
capa nova: cultura | saraiva | amazon

Coloquei a foto da capa antiga por ser a que eu tenho no ebook, mas por aí talvez seja mais fácil encontrar a capa nova, que ficou linda, inclusive quero. Uma aldeia moçambicana começa a ser atacada por leões vindos da savana, que começam a matar os habitantes e um caçador, Arcanjo Baleiro, é enviado pra resolver a situação. Enquanto isso, na aldeia, Mariamar, cuja irmã Silência foi morta pelos leões, tem suas próprias teorias sobre o que anda acontecendo com esses ataques. A história é narrada por esses dois personagens e é uma boa opção pra quem não quer começar pelos contos. É um livro pra ser lido devagarinho. AH, e a história foi inspirada em um evento real de quando Mia Couto estava numa expedição em Moçambique em 2008.


Outra opção legal de romance é O último voo do flamingo (aqui o link com a capa antiga) e eu tenho em casa o primeiro volume publicado aqui no Brasil da trilogia As areias do imperador, com o título de Mulheres de cinzas, mas não li ainda. Agora em julho também sai uma antologia poética com poemas selecionados pelo próprio autor, Poemas escolhidos. Todos são também da Companhia das letras.

De qualquer maneira, tanto faz se sua escolha for começar por contos, por romance ou por poesia: vai valer a pena. É TUDO MUITO BONITO.

3 dos livros mais esquisitos que já li + 1 bônus que eu não lembro direito


Quando eu trabalhava em livraria, costumava escolher boa parte dos livros que queria ler por causa do título. Até hoje, na verdade. É que eu não resisto a um título grande ou esquisito, e por causa disso já fui surpreendida várias vezes, tanto de maneira positiva quanto negativa, ou... é que às vezes apareciam alguns, ou pegos de forma aleatória ou por recomendação, que independente de serem bons ou não, eu terminava a leitura com uma enorme sensação de "... o que foi que eu acabei de ler?". O que, de certa forma, é uma ótima reação pra se ter ao terminar um livro, dependendo do ponto de vista. E às vezes o negócio é tão tenso que mesmo quando você adora, depois de um tempo não lembra direito os detalhes ou a ordem dos eventos. Tipo uma pessoa de ressaca tentando contar se a festa foi boa sendo que ela nem lembra direito como voltou pra casa.


DIGAM A SATÃ QUE O RECADO FOI ENTENDIDO
Daniel Pelizzari, Companhia das letras
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Uma agência de turismo em locais mal-assombrados de Dublin (e inventados pelo dono), um irlandês brigão e mal educado, uma adolescente numa peregrinação suicida, cultos estranhos, pessoas perdidas, podem ou não estar querendo sacrificar pessoas para um deus-lagarto, terrorismo e outras coisas super tranquilas, bem dia-a-dia mesmo. Os capítulos são alternados entre três personagens, e às vezes a mesma cena é mostrada por outro ponto de vista. Eles vão se enfiando nas situações mais loucas e se afundando nelas cada vez mais e enquanto isso o leitor fica com cara de "... que que tá acontecendo???". Tudo tem conexão e acaba fazendo sentido, mas até chegar lá, é o tipo de livro que você pode ou não entender o que está acontecendo na história e se não estiver, não tem problema, pega na mão de deus e vai com fé. Não tem como fechar esse livro sem ter a sensação de não ter muita certeza do que foi que se acabou de ler.

A PASSAGEM TENSA DOS CORPOS
Carlos de Brito e Mello, Companhia das letras
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O narrador, que de início não se tem muita noção de quem é (ou do que é), é encarregado de contabilizar as mortes que acontecem em diversas cidadezinhas. No entanto, em uma determinada cidade, encontra um morto que não passou por todos os rituais que costumam envolver a morte - velório e enterro e todas as outras firulas. O morto (envenenado) é ignorado por todos na casa - pela filha e pela esposa, que planejam o casamento da jovem (mas não há noivo) e pelo filho que nunca sai do quarto. Amarrado a uma cadeira como se estivesse apenas sentado descansando, o morto impede o narrador de seguir em frente ou dizer o nome da cidade enquanto não puder contabilizar aquela morte. É tudo maravilhosamente esquisito, e fica mais ainda quando se descobre a identidade do narrador. Spoiler em branco (que na verdade não acho que estraga a história saber): o narrador é uma língua. É. Eu avisei que era esquisito.

VOCÊ É UM ANIMAL, VISKOVITZ
Alessandro Boffa, Companhia das letras
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Cada capítulo traz uma história diferente usando sempre os mesmos personagens: Viskovitz, o principal, Liuba, seu eterno grande amor, e poucos outros. A diferença é que, em cada história, os personagens são animais diferentes. Animais da savana, camaleões em crise de identidade, caramujos, micróbios, escorpiões, tubarões e outros. Mas qual a parte esquisita? O autor é um ex-biólogo, e isso fica bem evidente na narrativa e na caracterização dos personagens, afinal, não dá pra falar num caramujo com mão e perna e boca e etc, então o autor troca isso tudo pelas partes anatômicas certas dos animais em questão. Em compensação, um dos animais de repente fala algo como "toquei seu rosto com a rebimboca da parafuseta", e se você não sabe o que é a rebimboca da parafuseta, vai ter que procurar no Google (vai ter que procurar frases inteiras, às vezes). E até que você faça isso e as descrições ganhem sentido, fica tudo muito esquisito.


BÔNUS 

LOUCO AOS POUCOS
(original: Going bovine)
Libba Bray, iD
Eu li poucos livros da Libba, mas amo essa mulher de paixão, e meu primeiro contato com ela foi com esse livro, mostra a que veio já na sinopse: Cameron Smith tem 16 anos e foi diagnosticado com a doença da vaca louca, ou seja, ele vai morrer. Então ele sai numa espécie de roadtrip com Dulcie, uma anja punk, Gonzo, um garoto anão neurótico, e Balder, um deus viking aprisionado no corpo de um gnomo de jardim. E isso não é nem metade das coisas esquisitas que vão surgindo na história, principalmente porque a maioria é tão louca que eu não lembro direito de parte delas, inclusive faz um tempo que ele anda na minha lista de releituras. Mas posso garantir que é um dos livros mais esquisitos que já li. Não sei como tá pra conseguir encontrar um exemplar agora, já que a iD não existe mais, mas o ebook em inglês eu sei que acha tranquilo.