Vai ter livro de youtuber sim


Tivemos a moda literária de livros de vampiro, livros eróticos, livros de pintar, e a atual é livros de Youtuber. E como toda nova onda literária, entra também na moda reclamar dela, com ou sem lógica ou fundamento.

Eu sou defensora da existência de livros de Youtuber. Nem vou pedir desculpa.

Falaram sobre o conteúdo dos livros, sobre o absurdo de pessoas tão novas que ainda não fizeram nada já lançarem biografias. Criticaram desde os próprios Youtubers, falando que seus vídeos não são relevantes ou são vazios de conteúdo até quem assiste a esses vídeos e alimenta essa cultura (ou falta de). Reclamaram das editoras darem espaço para essas pessoas ao invés de publicarem coisas que realmente importam.


Acontece que Youtubers não estão roubando lugar de ninguém, estão só ocupando um lugar no mercado que ficou "vazio" quando a onda dos livros de colorir passou. Nenhuma editora está deixando de publicar autores porque começaram a publicar livros de Youtuber, até porque, se considerarmos as maiores editoras do país, todas têm vários lançamentos por mês, de vários selos diferentes. Ninguém está perdendo lugar. E livro de YouTuber não estourou "do nada".

A saga Crepúsculo trouxe os livros de vampiro à tona numa época em que também ajudou a abrir as portas do mercado para literatura young adult. Depois de Crepúsculo, o mercado não pode mais ignorar que havia sim uma procura por livros adolescentes paranormais e de outros tipos. Assim, tiveram que prestar atenção a esse público (ou pelo menos começar a prestar atenção) e a dar a ele o que ele queria. O sucesso de Cinquenta tons de cinza tirou das mulheres a culpa por ler livros eróticos e trouxe esse tipo de literatura das prateleiras escondidas para os destaques e listas de mais vendidos, em especial por ter acontecido numa época em que se discute sexo e feminismo abertamente, mas ainda se trata sexualidade feminina como tabu. Cinquenta tons de cinza pegou isso e jogou na cara das pessoas. Livros de colorir tiveram grande demanda como válvula de escape numa época em que ser extremamente ocupado e estressado é cada vez mais visto como algo comum.

Livro de Youtuber não estourou agora à toa. Youtuber começou a ser encarado como profissão de forma recente, e por ser algo novo, é também algo que muitas pessoas ainda não entendem bem como funciona. A influência de canais do YouTube nos hábitos de consumo e comportamento é inegável, e a curiosidade sobre quem são as pessoas por trás desses canais é natural, principalmente vinda do público desses canais. Somando tudo isso à sensação de proximidade que esse público sente com o Youtuber por causa de redes sociais (e considerando que esse público é, em sua maioria, adolescente e jovem adulto) é mesmo tão difícil assim de entender por que os livros que levam seus nomes vendem tanto?

Youtubers, querendo ou não, acabam se tornando celebridades, e o público dessas celebridades está disposto a consumir o que elas têm para oferecer. Livros, por mais que muitas vezes sejam vistos como se fossem Baluartes de Cultura e Conhecimento, também são um produto. Calhou de as editoras e os Youtubers conseguirem lucrar juntando esses dois. E isso não devia ser demérito para nenhum deles.


Editoras precisam lucrar não porque são empresas capitalistas malignas que só querem arrancar dinheiro das pessoas com essas porcarias. Editoras precisam lucrar porque senão elas fecham. Isso não devia ser informação nova. Editora que não lucra, fecha. É só ver o caso da Cosac Naif. E estou falando em lucro, e não em chegar no fim do mês com a conta fechada certinha. O lucro gerado pelos livros que vêm dessas ondas literárias muitas vezes é o que permite uma editora apostar em um livro ou autor que talvez não gere tanto dinheiro em caixa depois, mas que por x motivos (por ser uma aposta da editora, por ganhar prêmios, por ter potencial, tanto faz) vale a pena ter no catálogo. Não dá para em 2016 as pessoas continuarem fazendo textão julgando literatura voltada para entretenimento ou mais popular. Não se chama de mercado literário à toa. Mercado. E todo mercado tem épocas em que determinados produtos têm maior demanda.

Claro que isso não significa que não se pode criticar o conteúdo desses livros. Claro que pode, mas é sempre bom levar em consideração qual o público daquele livro e qual o objetivo desse livro. Duvido muito que a Kéfera tenha escrito o livro dela pensando se o público do José Saramago ia achar bacana, ou que o livro do PC Siqueira tenha sido feito pensando se as fãs de Cinquenta tons de cinza vão achar divertido. Qualquer pessoa pode se interessar por qualquer livro, mas eles sempre são feitos e "marketados" pensando em um determinado grupo de pessoa. E a maioria dos livros de Youtuber que são lançados (biografias dos Youtubers contendo histórias e reflexões pessoais e sobre seus canais) são feitos pensando no público deles - que não é pequeno e não deve ser ignorado só porque tem gente que não curte. Eu sei que isso acaba gerando situações em que livros são lançados às pressas e de qualquer jeito só para não perder o momento, mas isso não é exclusividade de livro de Youtuber. Acontece em todas as novas ondas literárias do momento. Tem nessa, teve na anterior, vai ter na próxima. Se existe uma demanda, o mercado vai cobri-la, e nesse momento as editoras encontraram um grande potencial nos livros de Youtuber. O público quer comprar, os Youtubers querem produzir, as editoras querem vender.

público, editoras e Youtubers
E isso porque eu só mencionei por enquanto as editoras e os Youtubers. Tem também as livrarias. Livraria que não lucra também fecha. Livreiros, em sua grande maioria, recebem por comissão, ou seja, o salário do fim do mês depende do quanto a livraria vendeu. E salário de livreiro já é bem pequeno, viu. Aliás, livraria que não lucra não só fecha como demite funcionários, não abre espaço para eventos, não consegue investir em melhorias não só para os funcionários como para o consumidor. O Jardim Secreto salvou o salário de muito livreiro. O livro da Kéfera ajudou muita livraria a não fechar no vermelho.

E eu nem vou me estender muito na questão de livro de Youtuber formar ou não público leitor. A Kéfera levou milhares de adolescentes para a Bienal. A Jout Jout lota sessões de autógrafo em livrarias. Talvez parte desse público só compre esse livro desse Youtuber e nenhum outro. Talvez parte dele realmente se torne Leitor assim, com L maiúsculo, porque às vezes um livro puxa outro e a gente só precisa encontrar um para começar. Mas os Youtubers levaram para eventos literários e para as livrarias uma quantidade enorme de pessoas que não costuma muito frequentar esses ambientes. Se 10% dessas pessoas ficarem, é ótimo.

Ninguém tem obrigação de gostar de livro de Youtuber. Talvez o mercado esteja mesmo começando a ficar saturado. Claro que pode criticar ou reclamar do conteúdo. Também pode sim ter antipatia sem conhecer, às vezes o santo não bate e pronto. Mas criticar a mera existência desses livros não é só esnobismo, é não entender nada sobre como o mercado literário funciona. E é sempre bom entender qual o contexto de um produto que você consome tão vorazmente - tanto faz se é uma camiseta, um batom ou um livro.





10 comentários :

  1. Acho que quando essas coisas vem muito junto a gente fica irritado antes mesmo de conhecer (eu sou dessas que pega birra de livro depois de ver a vigésima pessoa lendo no metrô). Mas é porque a gente é bobo, como você disse, tudo continua no lugar e ninguém deveria se incomodar com isso.

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    1. Costumo pegar esse tipo de birra com séries quando vejo a mesma sendo falada em todos os lugares possíveis e imagináveis. Acho que talvez tenha a ver com a imagem da coisa ficar desgastada muito rápido? Tipo quando um ator ou cantora começa a aparecer muito na mídia por todos os cantos e ninguém aguenta mais ver, aí a pessoa acaba "sumindo" por uns tempos pra dar uma aliviada na imagem. A coisa de ficar meio saturado.

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  2. Sabe, tem muito sentido nisso tudo que você disse. Se existe gente comprando livros de Youtubers, é porque existe mercado. Bem simples.
    Acho que muita gente reclama porque ainda não consegue encarar a coisa de gravar vídeos como profissão. É tudo parte de um processo meio demorado, mas uma hora a coisa engrena. Pelo menos, assim espero. :)

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    1. Eu conheço bem pouco desse mundo de youtubers porque quase não acompanho, mas é tão óbvio que não é só ligar a câmera, falar e editar, e que tudo isso dá um mega trabalho, que não entra na minha cabeça considerarem uma coisa fácil.

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  3. Gostei bastante do texto e penso muito como você. Há espaço pra todo mundo nesse mundão. E tem uma coisa bem simples que as pessoas esquecem de fazer: se não gosta/interessa, clica no X e sai. Ignora. Passa adiante. Vida que segue.
    Mas tem gente que adora uma treta, né? Uma pena!
    Eu não me incomodo e inclusive li o da Jout Jout. Acredito também que há uma briga de pertencimento, de marcação de território. Muitos escritores não aceitam livros de Youtubers e celebridades como literatura. Isso talvez seja uma questão para se discutir um pouco, mas sem muito grilo.
    No final, o que eu gosto nisso tudo é que mais pessoas estão começando a ler por conta de livros como o da Kéfera. E isso sim é muito bom!

    Bjos
    www.jeniffergeraldine.com

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    1. Tem mesmo essa ideia de que literatura é um clubinho pra poucos, sendo que não é bem assim que funciona. O azar maior é mesmo de quem se prende e nem sequer tenta conhecer algo novo, nem que seja pra não gostar.

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  4. Quando eu tava no 1° semestre de Biblioteconomia tive uma professora que falava que existe a alta e a baixa literatura e que nos ensinava, como profissionais de bibliotecas, a desestimular o gosto literário do leitor de chick-lits, Y.A.s e afins para que eles fossem ler os clássicos já consagrados.

    Lembro que fiquei bem revoltada na época porque: RÉ LOU, MAS DE ONDE QUE ISSO VAI AJUDAR ALGUÉM NA SUA FORMAÇÃO COMO LEITOR? E desde quando todo leitor necessita chegar a ser um grande admirador de literatura clássica?

    Uma das leis da biblioteconomia é: a cada livro, seu leitor; a cada leitor, seu livro (dum senhorzinho chamado Ranganathan). Pois bem, eu não poderia dizer melhor.

    Portanto, bora deixar o povo ler o que quiser. Impulsiona o mercado e ainda ativa um local do cérebro que só é ativado com a leitura: a chamada "caixa da leitura" (sério).

    ;*

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  5. Também acredito que toda 'onda literária' tem o seu mérito e o seu lado bom. Dos livros dos youtubers eu li o da Jout Jout que é tão maravilhoso quanto ela. Adorei seu texto :)

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