O MISTERIOSO LAR CAVENDISH

›› autora: claire legrand
›› editora: gutenberg
›› isbn: 9788582351796
›› número de páginas: 262
›› título original: the cavendish home for boys and girls
›› livro enviado de cortesia
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sinopse: Quando Lawrence, amigo da mais-que-perfeita Victoria Wright, desaparece misteriosamente (e ninguém parece perceber isso, nem mesmo os pais dele!), fica a cargo dela descobrir o que aconteceu. Todas as pistas parecem apontar para o mesmo lugar: o misterioso Lar Cavendish. Resta saber se, uma vez lá dentro, Victoria vai conseguir sair.

Eu amo/sou livros middle-grade. Prefiro usar essa expressão porque aqui no Brasil a gente usa “juvenil” ou “infantojuvenil” pra qualquer coisa entre 9 e, sei lá, 18 anos?, quer dizer, a gente joga no mesmo saco faixas etárias que não estão mais nas mesmas fases de vida e não necessariamente se identificam com os mesmos livros. Com a chegada dos termos young adult e new adult, anda ficando mais fácil (ou menos difícil, depende do ponto de vista) saber a que tipo de livro uma pessoa se refere quando diz “juvenil”, mas para a maioria essas diferenças ainda não parecem muito claras.

Daí a quantidade de gente que obviamente já passou da faixa-etária ao qual os middle-grade se destinam (e que são escritos para) dizendo “apesar de juvenil, é muito bom”, “apesar de juvenil, não é bobo”. Esse “apesar de” me deixa muito louca de raiva porque fica implícito que juvenil é sempre bobinho e fácil de ler. Aí temos uma quantidade enorme de livros young adult e “adultos” em que os autores procuram desesperadamente dar um final feliz para a história em que todo mundo fica vivo e feliz e mais maduro, enquanto nos middle-grade você não tem garantia nem de que o cachorro vai chegar vivo ao final da história, que dirá o protagonista. Quem usa esse “apesar de” provavelmente nunca pegou uma Kate DiCamillo no meio do caminho.

Provavelmente também não pegou uma Claire Legrand.

Eu já tinha simpatizado com a protagonista Victoria Wright nos primeiros parágrafos, e depois de ler um texto da Claire no tumblr dela sobre a importância das heroínas antipáticas, amei e entendi a personagem ainda mais. Victoria leva a busca pela perfeição a níveis quase patológicos: seus cachos loiros são sempre geometricamente impecáveis, suas roupas não têm vincos nem amassados, suas notas são perfeitas, seu comportamento é exemplar, seu quarto praticamente repele grãos de poeira e tudo nele é devidamente arquivado, etiquetado e guardado nos lugares certos. Victoria tem ideias bem engessadas sobre o que é certo e sobre o que não é, e qualquer coisa que saia disso é visto e tratado com desprezo, ar de superioridade e grande irritação. Victoria parece, a princípio, uma pessoa horrível, e é exatamente essa a grande graça da personagem.


Sendo Lawrence seu completo oposto e visto por Victoria como uma espécie de projeto pessoal feat. bichinho de estimação, a personagem passa boa parte do começo do livro lutando contra as pontas de camisa para fora da calça dele, contra seus cabelos despenteados e contra seu comportamento desleixado. É bem rude com ele, mas Lawrence parece conseguir ver além dessa imagem que Victoria construiu para si mesma, já que quase sempre não se importa com a maneira como ela o trata e sempre tem algo legal ou simpático pra falar. Poderia ser uma amizade bem improvável, mas não é tanto assim. O jeito de Lawrence, mais a faixa de cabelos grisalhos que ele tem, fazem com que ele seja a piada constante dos colegas, que o chamam de “Gambá”. Parece crueldade, mas colégio é um lugar cruel e crianças são cruéis quando querem. A própria Victoria não tem amigos fora Lawrence, porque seu jeito e sua falta de vontade de socializar a deixam isolada. De uma maneira muito estranha e que os dois não entendem muito bem, a presença de um na vida do outro dá pelo menos um mínimo de conforto.

O desaparecimento de Lawrence e o fato de que todo mundo parece alheio a isso é o motivo que leva Victoria a entrar em parafuso, não somente porque tem alguma coisa fora de lugar (e ela odeia coisas fora de lugar e sem explicação), mas porque fica evidente que a única maneira de descobrir o que aconteceu é sair de sua zona de conforto. Victoria vai ter que mentir, omitir, investigar, sair escondida, coisas que a deixam nervosa porque batem de frente com tudo em que sempre acreditou. No começo, é visível o desconforto dela fazendo tudo isso, assim como o esforço para conseguir fazer, já que sabe que, se ela não se mexer, ninguém vai.

Aí entra o Lar Cavendish. Teoricamente um lar para crianças órfãs ou abandonadas, ninguém na cidade sabe dizer quando o lar surgiu, de onde a senhora Cavendish veio, quem são as crianças que vivem lá – ninguém sabe nada de nada, e ninguém se importa. A senhora Cavendish me lembrou muito a Outra Mãe de Coraline, do Neil Gaiman, o que significa que ela sorri muito, é muito simpática, parece muito perfeita e me deixou muito desconfortável – no bom sentido. Ela é bem medonha. Alice, o jardineiro/capanga dela também é bizarro. O próprio Lar é um personagem à parte, com seus corredores estranhos, suas partes escuras e paredes que parecem ter vida própria, seu jardim esquisito e os insetos. Muitos insetos, por todos os lados, até na diagramação do livro.

Dá a impressão de que Claire Legrand pesquisou todos os pesadelos que crianças costumam ter, juntou todos e chamou de Lar Cavendish. A autora não poupou nada nem ninguém, desde criaturas com forma humana com um olho só, tocos no lugar das mãos e pedaços do corpo faltando até marionetes assustadoras e crianças sendo castigadas de maneiras que não ficam devendo nada a Dolores Umbridge em Harry Potter.

Como se não bastasse tudo isso dando o clima creepy do livro, ainda temos o desenvolvimento da personalidade da Victoria e de Lawrence (principalmente da Victoria) de uma maneira não só maravilhosa, como plausível. Claire conseguiu fazer com que os personagens passassem por uma aprendizagem incrível, mas sem perder a essência. Eles não viram outras pessoas. Você ainda consegue olhar para o final do livro e reconhecer os personagens que aparecem no início.

E falando em final, lembram no começo da resenha que eu comentei que middle-grade não é necessariamente garantia de um final completamente feliz para todo mundo? Pois leia e chegue no epílogo.

Depois a gente conversa.







2 comentários :

  1. Adorei o que você disse sobre a classificação infanto juvenil! Isso atrapalha até quem quer comprar livros de presente (eu tenho duas primas pequenas) e precisa fazer uma senhora pesquisa pra descobrir a faixa etária apropriada.

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    1. A gente tem mesmo um ~probleminha~ na hora de nomear essas coisas. Livro ilustrado e livro-imagem é outra coisa que me põe louca!

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