Aquela vez que afoguei um Santo Antônio e ele se vingou


A minha família não é exatamente religiosa. Não temos costume de ir à missa e coisas do tipo, mas acendemos velas para santos, temos uma imagem de Nossa Senhora e uma de Iemanjá e todo ano colocamos doces para São Cosme e Damião. Nada muito diferente de muitas famílias brasileiras comuns. Eu também não sou uma pessoa exatamente religiosa, nem lembro a última vez que pisei numa igreja e tenho minhas mil e uma ressalvas com várias religiões, mas acendo velas para santos e guias, peço ajuda para São Longuinho me ajudar a encontrar coisas e tenho um pingente de Nossa Senhora que já tem um tempinho não sai do meu pescoço quando eu saio de casa. Nada muito diferente do que muita gente faz todos os dias.

Uma coisa que muitas famílias brasileiras e muitas pessoas fazem, além das promessas para santos, é a famosa simpatia. E desconfio que, de todo o panteão católico, o santo mais requisitado é Santo Antônio. E eu sei que, das simpatias para Santo Antônio, boa parte delas sempre acaba com o coitado em maus lençóis: ou elas envolvem esconder o menino Jesus, ou esconder o santo no fundo do armário, ou colocá-lo de castigo ou de ponta-cabeça num copo d'água, entre outras, tudo isso na esperança de que ele traga o amor verdadeiro, ou qualquer coisa parecida. Todo mundo diz que funciona, todo mundo diz que é besteira.

Ninguém diz que, às vezes, o santo se vinga.


Era época de faculdade, era perto do dia dos namorados ou do dia de Santo Antônio mesmo, não me recordo bem, mas era época das simpatias amorosas. Também era uma época em que eu estava solteira e sem muita coisa melhor para fazer, então quando minha mãe falou brincando que eu devia fazer uma simpatia para o santo, eu pensei "ok". Achei que era meio que o tipo de experiência que todo mundo devia ter pelo menos uma vez, sabe. Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho, fazer uma simpatia para Santo Antônio. Ok. Por que não?

Dei uma olhada na internet e acabei escolhendo uma que consistia em colocar o santo de ponta-cabeça dentro de um copo com água no fundo do armário, de castigo, e só tirar quando ele trouxesse o amor verdadeiro ou qualquer coisa que o valha. Então botei o santo lá e fui continuar a não ter coisa melhor para fazer.

O santo não gostou nadinha.


Não ter coisa melhor para fazer, no caso, era uma festa de faculdade três dias depois da simpatia feita. Eu fui, conheci um cara que parecia simpático, bonitinho, acabamos ficando, trocamos telefone, nada tão interessante assim.

Só que no dia seguinte ele ligou.

Conversamos um pouco, naquela época era mesmo telefone, orkut e MSN (essa história já tem mais de 7 ou 8 anos, só para quem estiver curioso), ele morava perto da minha casa e perguntou se podia passar por lá quando fosse passear com o cachorro. E eu disse ok, por que não? E ele passou. E o cachorro dele era um saco, e nós dois ficamos mais ou menos 15 minutos sentados na calçada da minha casa sem falar nada, porque não tínhamos nada em comum, logo, não tínhamos assunto. E ele foi embora, e eu pensei "ok". Melhor assim. Mas ele quis continuar conversando por MSN, aquela coisa monossilábica de pessoas que não têm nada em comum, logo, não têm assunto. Cheguei até a ir até onde ele morava, mas... enfim. Vocês já notaram o curso da coisa.

Acontece que além de tudo isso, ele foi se mostrando uma pessoa chatinha, inconveniente... e insistente. E eu não sabia o que fazer, porque naquela época ir direto ao assunto não era algo que me parecia uma opção. Então achei que só parar de responder ou dar desculpas esfarrapadas ia resolver.

Não resolveu.


Ele encheu a paciência por quase um mês, até o dia em que ligou me chamando para sair e eu disse que não podia porque estava ocupada pelo resto daquele mês e do próximo. O moço ainda argumentou, indignado, que não ia correr atrás o tempo todo, e eu, do alto da minha falta de tato social comum a pessoas que não sabem como agir nessas situações, respondi "mas não é para correr atrás mesmo".

Depois de desligar, lembrei do santo no armário. Saí correndo, tirei ele de lá, botei no lugar certo, pedi desculpas e disse que nunca mais faria nada parecido.

O moço nunca mais ligou e eu nunca mais fiz nenhuma simpatia.






10 comentários :

  1. Pensei que cê ia soltar pra menino um "pra afoguei o santo?!".
    E muito obrigada pelos comentários no blog. Eu fico toda feliz quando vejo. :)

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    1. Eu devia era ter afogado O MENINO xD e seus posts são legais ^^

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  2. HAHAHAHAHA, "mas não é para correr atrás mesmo"! Parece também o tipo de coisa que eu diria!

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    1. Atualmente acho que eu teria dado uma resposta mais delicada, mas juro que na hora falar isso pareceu a coisa mais lógica do mundo ^^''

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  3. HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHAHA. olha, nada pior do que alguém que fica correndo atrás da gente insistentemente, apesar de CLAROS sinais de que não estamos afim! é muito um saco, principalmente pelo pesinho na consciência que dá de ter que ser mais ~grossinha com a pessoa (comigo sempre rola, afinal... a pessoa as vezes pode ser legal, né? só sem muita auto estima, sei la, enfim...)

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    1. Eu devia ter sido mais direta desde o começo, mas foi muito uma época de NÃO SEI LIDAR COM ESSAS COISAS ^^''

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  4. AAAAAAAAAAAAAAAHUAHUAHUHAUHAUHUAHUAUHUAHUAHUHUAHUHAUHA eu estou gritando com a sua simpatia gone wrong. SOCORRO! Sempre fui avessa a essas coisas (minha mãe bem que insiste), agora é que eu nunca farei mesmo!

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    1. NÃO FAÇA MESMO, ACUMULA KARMA COM O SANTO!

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  5. HAHAHA, sensacional, nunca fiz simpatia e depois dessa, nunca farei! Se minha vida amorosa já é cagada sem enfezar um santo, imagina se botar o coitado de cabeça pra biaxo num copo de água no fundo do armário? =P

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    1. Meu post é praticamente um cautionary tale!

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