VAMOS FAZER DE CONTA QUE ISSO NUNCA ACONTECEU...

›› autora: jenny lawson
›› editora: gutenberg
›› isbn: 9788582350676
›› número de páginas: 284
›› título original: let's pretend this never happened
›› onde comprar: cultura | saraiva | submarino | amazon
sinopse: A blogueira Jenny Lawson, do The Bloggess, conta um pouco sobre sua vida perfeitamente normal: a infância no Texas com o pai taxidermista amador que trazia animais mortos pra casa, fantoches de cadáver de esquilos, a adolescência gótica e estranha, braços presos em inseminação artificial de vacas, o casamento com Victor e sua resiliência em amar a esposa apesar de tudo e em todos os momentos, incluindo aqueles em que ela compra jacarés empalhados de 50 anos vestidos de piratas e tenta entrar com eles no avião. 

Essa resenha não existiria se a Tassi não tivesse me recomendado a Jenny Lawson. E se não tivesse me emprestado o livro, mandando pelo correio. Dedico a ela o descaralhamento mental que ele me causou.

Meu primeiro contato com a escrita da Jenny foi através do Alucinadamente feliz, que comprei por indicação da - sim! - Tassi. Comecei a ler, mas acabei parando porque não conseguia sair de uma ressaca literária horrível que já durava alguns meses. E também porque meu ritmo de leitura de livros de não-ficção é devagar mesmo. Mas eu já sentia uma conexão enorme com o pouco que li, quer dizer, ela resolveu ser feliz só de raiva, considero isso mais do que objetivo de vida, sabe. Sem contar a capa e o subtítulo, mas vou deixar essas coisas pra quando for a vez da resenha dele.

A questão é que, um tempo depois, resolvi que queria ler Vamos fazer de conta que isso nunca aconteceu..., e a Tassi disse que me emprestava. Como ela mora no RJ e eu em SP, o livro veio pelo correio. Demorei um cadinho pra começar a ler decentemente, mas aí o livro deslanchou.

E eu não estava preparada pra ele.


A Jenny já começa avisando que algumas coisas contadas podem ser exageradas ou até mesmo não tão verdadeiras assim, o que é engraçado, porque exatamente quando você pensa "ah, essa parte aqui deve ser o exagero", surge uma foto documentando que não, aquela situação não era exagero nem inventada, taí uma foto de um guaxinim de bermudinha pra comprovar.


A questão é que esse exagero não é bem de "quem conta um conto, aumenta um ponto", mas a escrita da Jenny é que é exagerada. Ela divaga, emenda um assunto no outro, perde o fio da meada, volta ao assunto, se lembra de outra coisa no meio e avisa que vai deixar pra depois e retoma o ritmo. Isso acontece em todos os capítulos, que, com exceção de uns poucos, são curtos e com títulos maravilhosos como "o crack nem era meu" e "e então levei um jacaré cubano morto escondido no avião".

A infância dela não foi nada usual. Passada no interior do Texas, Jenny vem de uma família muito humilde e bem pobre, mas feliz e cercada de coisas muito bizarras, quase todas elas cortesia de seu pai. O pai da Jenny é um show a parte. Os animais empalhados também. A quantidade de animais mortos e vivos que apareciam pela casa dela também, tudo isso com a mãe meio resignada, meio "fico feliz se todos chegarmos mais ou menos vivos ao final do dia". Jenny foi uma adolescente metida a gótica meio frustrada que também passava por várias vergonhas e situações constrangedoras. Conheceu seu marido Victor e garanto, esse casal realmente tinha que acontecer. As situações pelas quais os dois passam (quase todas cortesia de Jenny) são surreais, e algumas bem tristes. Tristes de verdade - tem um capítulo, por exemplo, em que Jenny conta sobre os abortos espontâneos pelos quais passou. De qualquer maneira, é muito difícil não rir durante praticamente o livro todo.

Só que o riso acaba sendo um misto de coisa engraçada com incômodo quando Jenny acaba deixando claro que boa parte das situações hilárias nas quais ela se enfia acontece por causa de seus transtornos mentais, como ansiedade e TOC. Foi nesse momento que o meu descaralhamento mental começou, porque muitas reações dela começaram a me soar too close for comfort.


E foi com elas que eu percebi que talvez tenha sofrido de ansiedade a minha vida inteira, e não só depois de adulta. Foi como se eu tivesse levado uma tijolada no meio da cara. Não esperava que pudesse encontrar trechos tão doloridos pra mim, e em alguns momentos eu ria de nervoso mesmo, porque sabia exatamente o que ela estava sentindo durante uma cena bizarra qualquer. Por outro lado, essa tijolada me ajudou a entender algumas coisas pelas quais passei quando era adolescente. Foi bom saber que eu não fui a única a me sentir assim, me ajudou a me sentir menos esquisita.

Eu queria falar muito mais nessa resenha, mas algumas coisas ainda preciso processar direito. Mas acho que esse é um ótimo exemplo de que você nunca sabe o que pode acabar tirando de um livro, por mais "de boa" que a leitura possa parecer à primeira vista.



›› outras resenhas

Tem uma com fotos bem legais lá no Just Carol
Foi recomendação do Nem Um Pouco Épico entre outros legais de não-ficção

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