Personagem feminina não é plot device, pelo amor de deus, A GENTE TÁ EM 2016, SABE


Vamos falar rapidinho sobre cultura de estupro, misoginia e violência contra a mulher em literatura juvenil? Vamos. Isso é mais um pequeno lembrete mesmo. Porque precisa.


Literatura também compactua com cultura de estupro, e é alarmante que em 2016 a gente ainda precise explicar as razões com gráficos, desenhos, estatísticas, mímica e apresentações em power point pra que isso seja levado a sério.

Dizer que mas é ficção, que é só um livro, que é só uma história, que não é bem assim, não é desculpa pra nada. Ainda mais quando seus personagens são adolescentes e seu público é adolescente.

Não dá pra justificar esse tratamento da personagem feminina dizendo que é o personagem que é assim, que a história que tá acontecendo é assim. Se em nenhum momento você problematiza isso, se em nenhum momento você questiona esse comportamento (e se questiona, justifica logo depois), se em lugar nenhum você mostra que aquilo tá errado, a mensagem que você tá passando é a de que, de alguma maneira, esse tipo de comportamento é justificado.

Não é.

Não dá pra colocar uma personagem feminina diante de toda sorte de desconfiança, abuso e violência só pra servir de plano de fundo pra história do personagem masculino. A personagem feminina com um passado trágico, misteriosa e de vida difícil que foi criada única e exclusivamente pro protagonista aprender alguma coisa ou passar por algum tipo de experiência não é uma boa personagem. Esse protagonista também não é. Essa também não é uma boa história.

A gente precisa repetir isso como se fosse um mantra: personagem feminina não é muleta pra trama de personagem masculino. Também não dá pra fazer essa personagem passar por porrada atrás de porrada pra conseguir simpatia de quem tá lendo.

Tem mil maneiras e recursos diferentes pra se criar uma história com aquela aura COOL AND EDGY e tá na hora de entender que estupro, abuso e violência contra a mulher NÃO É UM DELES.

Você não precisa foder com a personagem feminina pra ter uma história descolada.

É sério.


4 comentários :

  1. SIM SIM SIM
    Nossa, exatamente!
    Eu nem poderia comentar agora, mas só quero deixar aqui minha emoção por finalmente ver um post desses. ♥

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  2. Esses dias eu tava lendo Fragmentados pela segunda vez. Eu li toda a saga de livros do Neal Shusterman e me apaixonei muito pelos personagens, porque são muito diversos tanto em background quanto na aparência, habilidades e etnia. O livro fala muito sobre capacitismo, abandono e juventude.

    Mas no primeiro livro a personagem feminina Risa (uma dos principais) passa por situações de perigo eminente duas vezes (o próprio protagonista, pintado e bordado como um cara cool e descolado a assedia até). E então isso se repete em alguns livros em diante de diversas formas, em algumas situações até mesmo romantizada (no terceiro livro).

    Me irrita um pouco porque é uma especie de gatilho. A personagem é descrita como forte e independente, mas sempre vai ter aquela situação ameaça de colocar ela no seu próprio lugar através de abuso sexual. Ou quando tentam usá-la para atingir o protagonista, manipulá-lo, etc.

    A personagem feminina pode até ser secundária, mas não deve ser desenvolvida como um apêndice do personagem principal. Jamais.

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    1. Dá uma sensação meio desesperadora porque parece que nem em livros a gente consegue ter um lugar "seguro". E também porque infelizmente esse tipo de enredo ainda é bem aceito e vende bem. Dá pra fazer uma lista enorme de coisas problemáticas que acontecem com personagens femininas. Rivalidade feminina, por exemplo. Coisa mais fácil de encontrar em livro juvenil é protagonista brigando com outra mulher por causa de macho que, no final das contas, as duas estariam melhor sem.

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