Coisas que li porque meu gene da autopreservação literária só funciona quando quer


Adorava filmes de terror quando era mais nova. O que saía, eu estava vendo. Isso não se refletiu na leitura porque.. sei lá. Mistérios da vida. Mas a questão é que eu assistia quase qualquer coisa. Quando vi O exorcista pela primeira vez tive pesadelos 3 dias antes de tanto nervoso (mas não depois, porque acho que já tinha gasto toda a cota de medo àquela altura). O chamado na versão japonesa me deixou 6 MESES sem dormir. Sim. SEIS MESES. Até hoje, se a tv estala à noite, eu acordo. Eu assistia filmes de terror sem nem saber que eram de terror.

Eu assisti um filme de terror em que o vilão era o cabelo das pessoas

Morria de medo. Ficava dias sem dormir. Dava um trabalho danado pra coitada da minha mãe. Mas assistia mesmo assim.


Só que aí aconteceu uma coisa muito louca: eu cresci e fiquei medrosa pra caralho.

Na verdade não foi só ter ficado medrosa, isso eu sempre fui. Mas eu descobri duas coisas muito importantes:
1) Eu gostava muito de dormir, principalmente em paz.
2) Eu realmente - REALMENTE - detesto jumpscare.

Como a grande maioria dos filmes de terror "relevantes" nos últimos tempos são cheios de jumpscare, achei o momento ideal pra largar mão mesmo. Agora ando querendo voltar a ver. Comecei por Babadook e achei um começo acertadíssimo (não tem jumpscare), agora estou criando coragem pra ver A bruxa (me disseram que também não tem). Já sei que não vai ser uma tarefa muito fácil achar filmes de terror sem esse maldito jumpscare (ou que não tenha muitos) e sem aquele gore estilo Jogos Mortais que me dá mais siricutico do que qualquer outra coisa. Mas eu não tenho pressa. Baby steps.

Se meu instinto de autopreservação funciona muito bem com filmes e seriados, ele é completamente inexistente com livros. Independente de ter me assustado com eles ou não, aqui vão alguns livros de terror que li ao longo desses anos porque o gene da autopreservação literária, aquela coisa que te diz "amiga, melhor não, né" antes de você escolher sua leitura da vez é muito defeituoso.

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O DEMONOLOGISTA
Andre Pyper, editora Darkside
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Tinha visto esse e pensado "olha, um livro de demônio recomendado pela Gillian Flynn, claramente algo que eu deveria ficar longe, não é mesmo?". Não. O livro chegou na livraria, e ele era vermelho, e de capa dura, e a lombada era toda detalhada para parecer antiga/danificada, e meu bom senso disse why not? e levei pra casa. Na melhor das hipóteses, seria muito bom. Na pior das hipóteses, eu sempre poderia abandonar o livro numa igreja ou botar no congelador. No final das contas, algumas cenas me deixaram meio nervosa mas não cheguei a ficar sem dormir, e apesar de ter achado o final meio meh, a leitura foi legal. Ah, o livro vai virar filme e acho que assim ele tem mais potencial pra dar mais sustos e mais medo do que o livro. De qualquer maneira, as cenas são muito bem escritas (tenho uma dificuldade enorme em visualizar essas coisas, mas algumas até consegui imaginar as descrições!) e é uma boa leitura pra quem gosta de demônios (não que alguém goste de demônios; você me entendeu) e de questionar até que ponto nossas crenças podem ser desafiadas sem que entremos em surto ou comecemos a duvidar da própria sanidade.


HELLRAISER
Clive Barker, editora Darkside
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Quase o mesmo caso de O Demonologista, com a diferença de que esse eu meio que fiz questão de ser burra ler. O livro é todo lindo, capa dura, imita couro, ia ficar lindo na estante e, pelo que eu me lembrava, gostava do filme de Hellraiser. Quer dizer, eu lembrava o básico da história e que o filme tinha me deixado com aquela sensação de afliceta sem ser aquela que Jogos Mortais dá porque não tinha rolado nojo e etc e tal. De qualquer maneira, as chances de eu me ferrar eram grandes, então obviamente eu pulei no trenzinho da falta de amor próprio e fui ler. No começo a leitura me parecia meio chata, mas engatou logo e tive exatamente as mesmas sensações do filme, ou seja: gostei do livro. É curto e eu queria que fosse um pouco menos direto, mas talvez a grande graça dele seja exatamente essa. Também dá vontade de conhecer mais sobre a mitologia envolvendo os cenobitas. A história é um ótimo exemplo de que, no final das contas, o ser humano definitivamente não está pronto pra receber algumas respostas. Também dá pra dizer que a moral da história é não sair abrindo caixinha em forma de quebra-cabeça por aí. Só larga onde achou e sai correndo, ok.

O VILAREJO
Raphael Montes, editora Suma de letras
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Eu pensei "contos de terror não vão me deixar sem dormir, né, tá de boa isso". Não tá de boa. Os contos são legais, uns mais que os outros, a história central que amarra todos é ótima e traz um questionamento bem antigo (o quanto é preciso pra tentar uma pessoa a fazer coisas que teoricamente ela jamais faria?), e as coisas andavam bem (eu estava com aquela sensação de impressionada, porém ainda com a perspectiva de dormir direito), mas não esperava que a última página fosse uma imagem e virei com tudo e dei de cara com ela. Não é uma imagem assustadora ou algo assim, mas eu realmente não esperava que ela estivesse ali. Levei um tempinho pra me acalmar e conseguir dormir, e até hoje não consigo olhar aquela última página. Não é que esse livro conseguiu ter um jumpscare? Os contos mostram como o ser humano, quando pressionado nos pontos certos, pode facilmente raspar seu verniz de civilidade e mostrar sua pior faceta. Nunca mais na minha vida eu vou atender a campainha (a não ser que seja o carteiro).

O ILUMINADO
Stephen King, editora Suma de letras
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Morri de medo do filme, por algum motivo estúpido pensei que não ia morrer de medo do livro. O meme do "cuidado com a burra" me cai bem nesse caso. Não sei dizer com qual deles me assustei mais, mas gostei bem mais do final do filme por parecer mais dramático. Um tempo depois descobri que tem uma minissérie de 3 episódios, essa aqui, que eu tinha assistido há um tempão, e até vale a pena assistir, mas se for pra optar por um só, aconselho o filme mesmo. O Literatortura tem um post apontando algumas das diferenças entre livro e filme, quem não liga pra possíveis spoilers, o post é esse aqui. Vale a pena ler e, se for mais corajoso que eu, talvez fazer uma pequena maratona de filme e minissérie. O livro ganhou uma continuação anos depois. Doutor Sono, que também saiu pela Suma de letras, mas apesar de ter ficado empolgada no lançamento, não tenho tanta certeza assim se quero saber o que aconteceu com Danny depois do Overlook. Mas eu definitivamente leria alguma coisa com as histórias antigas do hotel, que é praticamente um dos personagens principais do livro.

O EXORCISTA
William Peter Blatty, editora Nova Fronteira
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Não lembro agora se li antes ou depois de assistir ao filme, mas lembro claramente de não conseguir ler à noite, de deixar numa gaveta e de checar antes de dormir se ele realmente estava lá. Recentemente teve uma série inspirada no livro, com o Alfonso Herrera e a Geena Davis. Só tive coragem de assistir o primeiro episódio. mas procurei todos os spoilers possíveis e quem gostou do livro e do filme e é mais corajoso que eu vale muito a pena assistir. A única coisa que eu sei é que que nunca mais na vida eu vou ler esse troço de novo porque preciso colocar pelo menos algum limite e ele vai ficar exatamente aqui.
edit 29/07: E NÃO É QUE EU COMPREI "EXORCISMO" DA DARKSIDE QUE CONTA A HISTÓRIA REAL EM QUE "O EXORCISTA" FOI INSPIRADO? EU NÃO APRENDO NUNCA GENTE, ALGUÉM ACHA MEU RECIBO QUE EU VOU ME DEVOLVER.


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