5 contos nacionais com protagonistas lgbt+


Faz pouco tempo eu resolvi tentar o kindle unlimited pela segunda vez. Da primeira acabou não dando muito certo: na época do primeiro teste que fiz, só queria poder ler um livro específico da série Cretino irresistível, e dos outros livros internacionais que apareciam nenhum me interessava e eu não tinha paciência pra procurar coisas por lá.

Dessa vez, minha intenção com o unlimited era bem específica: eu queria poder ler autores nacionais que publicavam de forma independente, e levando em consideração o preço desses livros, o preço da mensalidade do kindle unlimited e a variedade dentro do que eu procurava, parecia valer a pena. Peguei um teste grátis por 30 dias pra ver no que dava e descobri o maravilhoso mundo dos CONTOS ESCRITOS POR AUTORES NACIONAIS. É a maneira perfeita de ler histórias curtas, legais e diferentes, e agora me dá vontade de esmurrar a minha própria cara por nunca ter pensado na possibilidade de explorar mais essa parte da Amazon, principalmente a parte de romances lgbt+.

Nesse momento tô terminando de ler "Contando estrelas" da Thati Machado e já peguei "Sutilmente" da Nina Spim com ilustrações da Alice Gonçalves pra ler depois, então aproveitei pra fazer esse post indicando os outros que li até agora e fazer propaganda da Olivia e do Vitor que são autores da Página 7.

Os links dão direto pra página da Amazon com os ebooks.



ENTRE ESTANTES
Olívia Pilar
"Isabel quer provar para todos que pode ser boa no curso que escolheu. Mas o que ela não imaginava ao ir buscar um livro na biblioteca da faculdade é que, antes de provar qualquer coisa, ela precisa conhecer a si mesma."
Conto super curto, super fofo e você termina chateadíssima exatamente porque ele é fofo e curto e dá vontade de ler mais mas NÃO TEM, Olivia foi cruel. Principalmente porque em poucas páginas ela consegue criar uma personagem redondinha e com a qual o leitor consegue se identificar com facilidade. Romance tendo início numa biblioteca, quem não queria algo assim? Aliás, é perfeito pra quem quer um romance curto e com uma representação maravilhosa de protagonistas negras e lgbt+. Dá pra todo mundo ler e terminar feliz.


TEMPO AO TEMPO
Olívia Pilar
"Carolina e Elisa não poderiam ser mais diferentes. Unidas por uma forte amizade, juntas formam o equilíbrio perfeito. Mas conforme os anos passam, elas percebem que o sentimento que nutrem uma pela outra pode ser mais forte do que imaginavam."
Olha a Olívia aqui de novo! Esse conto também é curto e fofo, e nesse caso, ele cobre todos os (muitos) anos de relacionamento entre as duas protagonistas, começando com a amizade entre as duas quando mais novas. Acho que esse é meu conto preferido dela e me deixou toda boba com a história. E esse também têm protagonistas negras.


EU E ELA
Maria Hollis
"Uma semana atrás, tudo mudou entre Lara e Nicole. Agora, em uma tarde de verão na piscina, tudo está prestes a mudar de novo."
Mais um conto curtinho e fofo, com protagonistas lgbt+ e uma delas é asiática - mais uma vez, representatividade importa. Esse eu senti que tem o tamanho que precisava ter pra contar essa parte da vida das duas garotas, e mesmo curtinho eu fiquei torcendo pra tudo dar certo no final.


DE TODOS OS MOTIVOS
Vitor Castrillo
"Confuso com seus sentimentos, Pedro recorre à internet e escreve em um fórum sobre a amizade e seus sentimentos por Henrique, seu melhor amigo. Em busca de ajuda e palavras de incentivo que o façam tomar a iniciativa que precisa para descobrir o que realmente existe entre os dois além da forte amizade."
Procurar ajuda na internet pra entender o que é que tá acontecendo, quem nunca. Um hino em forma de ebook com metáforas fofas, dá vontade de trancar os protagonistas num quartinho até que eles ENTENDAM O QUE É QUE TÁ ACONTECENDO. Uma coisa meio now kiss!, sabe.


A ROSA DE ISABELA
Solaine Chioro
"Isabela acaba de se mudar para uma pequena cidade no interior de São Paulo com a sua família e, enquanto suas irmãs ainda parecem se ajustar àquela nova realidade, a jovem sente-se confortável no novo ambiente. O infortúnio, porém, acaba entrando em suas vidas quando sua mãe se desespera, afirmando ter encontrado o monstro que habita a floresta, protagonista de uma antiga lenda da cidade. Decidida a tranquilizar sua mãe, Isabela vai à procura de tal fera e acaba se surpreendendo com o que encontra e com a proposta que recebe."
Releitura de "A bela e a fera" com protagonistas negras e lgbt+, precisa mais do que isso pra ser feliz?

3 livros infantojuvenis para arruinar seu emocional


Não vou entrar na questão da nomenclatura porque aqui no Brasil "infantojuvenil" às vezes era usada pra toda literatura produzida pra faixa etária dos 2 aos 18 anos, aí ficou "infanto" pra criança e "juvenil" pra mais ou menos de 9 a 18 anos, aí surgiu o termo "jovem adulto" pra livros mais adolescentes e eu gosto do termo "middle grade" mas é em inglês então por "infantojuvenil" eu quero dizer livros escritos pra faixa de 9 a 13 anos, mais ou menos.

Disse a pessoa que não ia entrar na questão da nomenclatura mas escreveu um parágrafo inteiro sobre isso. Algumas vírgulas foram comidas aí no meio.

A questão é que ainda persiste a ideia de que
1) literatura infantojuvenil precisa ser enrolada em plástico bolha e mantida longe de tudo que possa causar qualquer tipo de emoção conflitante no leitor e
2) é tudo muito bobinho

O que é uma enorme besteira. Os primeiros livros de Harry Potter são infantojuvenil, e JK Rowling  e também o Rick Riordan não costumam poupar os leitores deles de muita coisa. Mesmo se pegar os livros mais próximos do infanto que do juvenil, taí Diário de um banana e Querido diário otário com dois dos protagonistas mais cretinos e sarcásticos que eu já li (eu amo Querido diário otário).

Claro que é preciso ter cuidado em como temas mais densos são tratados e que tem muitos livros pra essa faixa etária que são ótimos e puro amor em forma de açúcar, mas qualquer pessoa que conviva por certo tempo com pré-adolescentes sabe que além de gostar de coisas fofas e despretensiosas, eles também gostam de um pouco de caos, destruição e descompensamento emocional.



Esse post é pra indicar 3 livros infantojuvenis que focam na parte do descompensamento emocional.




A HISTÓRIA DE DESPEREAUX
Kate DiCamillo, Martins Fontes
livro físico: amazon
Se tem uma autora que não tem dó de pisar no emocional dos leitores, é a Kate DiCamillo. Nesse ela conseguiu criar histórias que se entrelaçam aos poucos e nunca na sua vida um rato e um camundongo vão te deixar tão alterada emocionalmente quanto aqui. Pra sentir o clima, um trecho:



A EXTRAORDINÁRIA JORNADA DE EDWARD TULANE
Kate DiCamillo, Martins Fontes
livro físico: amazon 
Outro hino da Kate DiCamillo. O Edward Tulane do título é um coelho de porcelana muito amado pela dona, a menininha Abilene, e exatamente por isso ele é muito, MUITO arrogante. Até que ele sofre um acidente e se perde, e a partir daí a vida dele vira um mar de desgraça e coisas triste acontecendo, tudo isso contribuindo pra ele ver que a vida é um negócio complicado que vai muito além da Abilene. Pra vocês terem uma ideia, eu tô aqui mandando trechos do livro pra Iris e aconteceu isso


Eu não tenho esse em casa e não achei as quotes que eu queria em português, mas nesse link aqui você pode ir pro Goodreads e dar uma lida em algumas em inglês. Pode acabar pegando alguns spoilers, mas fazendo uma alusão tosca ao título, nesse livro o que importa mesmo é a jornada.


A COISA TERRÍVEL QUE ACONTECEU COM BARNABY BROCKET
John Boyne, ilustrações Oliver Jeffers, Companhia das letrinhas
livro físico: amazon 
Os Brocket são as pessoas mais normais do mundo, e numa família de pessoas mais normais do mundo, nascer como uma criança que literalmente flutua não é uma coisa muito legal. Um dia uma coisa terrível acontece, e é nessa jornada de Barnaby que A coisa terrível que aconteceu com Barnaby Brocket é um dos livros mais sensíveis que eu já li na minha vida. Como li emprestado, não tenho aqui as quotes que eu queria colocar, mas nessa imagem aí embaixo tem um pedacinho do que te espera na leitura. Créditos da foto: Thyeme Figueiredo, do blog Opinião da designer (só clicar pra ver o post dela com mais fotos lindas).




BÔNUS: MAIS UM MONTE DE INDICAÇÕES

Desses, alguns eu li, outros pretendo ler, outros foram indicações de pessoas maravilhosas que também sabem o quanto um livro infantojuvenil pode desgraçar mexer com o emocional de uma pessoa - não importando se ela tem 11 ou 30 anos.

POCHÊ, A TARTARUGA QUE VIVEU A VIDA
Florence Seyvos e Claude Ponti, Martins Fontes (amazon)
Qualquer pessoa com depressão vai se enxergar nesse livro. A história toda é basicamente uma metáfora pra uma pessoa que tem esse transtorno, do início até a superação. Sim, a tartaruga tem depressão. É um livro infantojuvemil que ajuda a falar sobre depressão com pré-adolescentes. Vocês têm alguma ideia da importância disso, da importância de tratar desse assunto com essa faixa etária?

A TEIA DE CHARLOTTE
E. B. White, Martins Fontes (amazon)
"AH, É A MENINA E O PORQUINHO?" É. Não confundir com Babe, o porquinho atrapalhado. "AH, É O DA ARANHA?" É. A aranha Charlotte é provavelmente um dos melhores personagens que eu já li.

O ELEFANTE DO MÁGICO
Kate DiCamillo, Martins Fontes (amazon)
"Mas essa autora já não apareceu aqui?" pois é, então vai com fé.

O TIGRE
Kate DiCamillo, Martins Fontes (amazon)
"Nossa, essa mulher de novo?" sim pra vocÊS ENTENDEREM O QUANTO ELA É BOA EM ARRUINAR SEU EMOCIONAL.

EM ALGUM LUGAR NAS ESTRELAS
Clare Vanderpool, Darkside (amazon)

ECOS
Pam Muñoz Ryan, Darkside (amazon)

PAX
Sarah Pennypacker, ilustração Jon Klassen, Intrínseca (amazon físico e amazon ebook)

CRENSHAW
Katherine Applegate, Plataforma21 (amazon físico e amazon ebook)

SUZY E AS ÁGUAS VIVAS
Ali Benjamin, Verus (amazon físico e amazon ebook)

PASSARINHA
Kathryn Erskine, Valentina (amazon físico e amazon ebook)
Um dos melhores livros com personagem asperger que eu já li na vida.

CLAROS SINAIS DE LOUCURA
Karen Harrington, Intrínseca (ebook)

THE GIRL WHO DRANK THE MOON
Kelly Barnhill, Algonquin Young Readers  (ebook em inglês, vai sair aqui pela Galera Record)

AMANHÃ VOCÊ VAI ENTENDER
Rebecca Stead, Intrínseca (ebook)

O que Gildo nos ensina sobre o trope "mulheres na geladeira"


Tem um livro infantil que eu gosto muito, Gildo, da Silvana Rando.

Esse é o Gildo.


O Gildo é um elefantinho muito simpático e corajoso, mas que tem pavor de bexiga. Ele vai numa festinha de aniversário de um colega e a mãe desse colega coloca amarrado no braço do Gildo justamente uma bexiga. MOMENTOS DE TENSÃO. Ele não consegue tirar, então acaba passando o dia inteiro tendo que lidar com aquela bexiga ali, até que acaba percebendo que não tem mais medo dela e todo mundo fica feliz.

Moral desse post: se dá pra escrever uma história de aprendizado e superação em 25 páginas usando um elefantinho e uma bexiga, dá pra escrever um livro jovem adulto sobre aprendizado e superação sem precisar estuprar/matar/abusar/torturar sua personagem feminina para que o protagonista masculino aprenda alguma coisa ou acumule experiências de vida.

Fim.

Mentira, aqui nesse link tem explicando exatamente o que é o trope "Mulheres na geladeira" e por que ele é nocivo. A Iris Figueiredo, aquela autora linda da duologia  Confissões On-line e que vai lançar livro novo ano que vem pela editora Seguinte #propaganda também já fez um video sobre o assunto.

Infelizmente é mais comum do que se pensa encontrar misoginia disfarçada de sensibilidade em livros young adult, new adult e muitos outros, e a gente precisa parar de bater palma pra isso.


Escrivências: quem manda aqui sou eu (mas às vezes não)


Já tem um tempo que eu queria escrever alguma coisa sobre processos de escrita e afins mas ficava em dúvida se eu tinha competência pra falar sobre isso então resolvi escrever mesmo assim porque afinal é disso que a internet é feita.

Disso e da falta de vírgulas.

Muito tempo atrás, quando teve um encontro de livreiros com a Kiera Cass em uma das vezes que ela veio pro Brasil, alguém perguntou alguma coisa sobre como as histórias surgiam pra ela. E a Kiera respondeu algo sobre como os personagens sussurravam as próprias histórias pra ela, e como era seu papel ir contando o que eles iam falando. Depois desse dia, li muitos outros autores comentando coisas mais ou menos parecidas sobre como era na hora de colocar a história pra andar: os personagens mandavam no rumo da trama, e "eu não queria que tal evento acontecesse, mas era o que tinha que acontecer". E eu achava isso uma coisa muito mágica.

Até que sentei pra escrever algo meu e percebi que quando colocava minha história no papel, meu processo não era nada parecido com o deles.


Eu tinha a ideia, os personagens e um esquema do que eu queria que acontecesse, e por mais que seguisse a coerência da personalidade que tinha dado a eles, e prestasse atenção na continuidade da história, não tinha um momento em que eu pensava "eu não quero fazer X, mas isso foge das minhas mãos e é o que tem que ser feito". Se a trama começava a tomar um rumo que não tinha sido planejado, se eu decidisse que aquele caminho novo servia melhor, continuava nele; senão, voltava alguns ou muitos parágrafos e mudava o que fosse necessário pra que tudo se encaixasse novamente onde eu queria. Se a personalidade do personagem não condizia com o que eu queria que ele fizesse, ou eu desistia daquela ação porque não ficaria boa, ou eu criava alguma situação em que fosse justificável ele agir daquela maneira. Se meu casal não tinha química, eu podia desistir de fazê-los um casal, ou revisar tudo de forma a fazer essa química aparecer.

Não importa como olhasse, a história era minha, os personagens eram meus, e quem mandava ali era eu. Minha trama não era uma democracia. Se alguma coisa precisava ser cortada ou acrescentada ou modificada pra que eu tivesse o efeito que queria, então era isso que eu ia fazer, e mesmo se percebesse que o melhor era ir escrevendo como estava e ver como ficaria no final, ainda era uma decisão consciente minha. Se eu não sinto que tenho o controle do que tô escrevendo, ou não sai nada ou eu não consigo ficar feliz com o resultado.

Então comecei a achar que tinha alguma coisa errada comigo: que minha história era ruim, que meus personagens eram rasos, que eu era um embuste de escritora controladora. E quando tentava escrever alguma coisa seguindo o que alguns dos outros escritores diziam, não saía nada que prestava, então obviamente eu era o problema.


Mas não era. Eu só tinha um processo de escrita diferente deles e parecido com o de outros. E só consegui perceber isso de vez quando assisti a mesa da Socorro Acioli na Flipop, quando ela comentou que fazia esquemas dos capítulos como guia na hora de escrever. Eu tive quase uma iluminação divina quando ela disse isso, porque é exatamente assim que eu escrevo. Preciso ter um esquema com um mini resumo do que eu quero em cada capítulo, pra a partir daí construir algo em cima. E não tem nada de errado nisso.

Alguns escritores preferem fazer esquemas, outros preferem ir escrevendo direto e lidar com as coisas conforme forem acontecendo. Alguns preferem deixar a história e os personagens correrem soltos mesmo que isso signifique escrever cenas que eles não gostariam que acontecessem mas que se encaixam na trama e a vida é assim mesmo, outros preferem manter um controle maior de tudo na hora de passar pro papel ou pro word. E tem ainda outros que misturam tudo isso ao mesmo tempo ou fazem cada projeto de uma maneira.

E tá todo mundo certo, porque no final das contas, o melhor processo de escrita é aquele que funciona pra você. A única coisa que não vale a pena é ficar comparando o seu com o dos outros e achar que tem alguma coisa errada com você por causa disso, porque não tem. Se achou o que você prefere, tá perfeito. Se ainda não achou, vai testando que uma hora vai. E mesmo se achou e quer experimentar outros porque vai que também dá certo, se joga. Se fazer fichas de personagens não funciona pra você, então não faça. Se funciona, vai lá e faz.

O importante é você ficar feliz com o que sair disso tudo.

(Tentei cortar o máximo possível da palavra "eu" nesse post mas não rolou, dsclp)


O cabo amarelo no lugar errado


Vai vendo.

Por esses dias eu resolvi dar uma arrumada nos cabos do computador e do roteador/modem/eu-não-sei-o-nome-daquilo. Tirei todos eles do lugar, dei uma limpada, arrumei os que estavam embolados, coloquei todos de volta nos devidos lugares.

É claro que nesse processo eu ferrei a internet.

E eu sabia que o problema era alguma coisa no roteador/modem/eu-não-sei-o-nome-daquilo, só que nada fazia sentido. Eu tinha colocado tudo de volta. O cabinho que ia na tomada estava no lugar do cabinho que ia na tomada. O cabo azul estava onde deveria estar o cabo azul. O cabo amarelo estava na portinha amarela.

Antes de ceder aos meus instintos e arrebentar tudo com um martelo, minha mãe mandou uma mensagem para um primo nosso, pedindo socorro. Ele ficou de vir no dia seguinte cedo para dar uma olhada no que é que eu tinha feito.

Uma olhada nas configurações, não tinha nada de errado, então quando falei que tinha tirado e recolocado os cabos do roteador/modem/eu-não-sei-o-nome-daquilo, ele foi dar uma olhada.

- É o cabo amarelo que tá no lugar errado.

UÉ.

- Mas eu coloquei o cabo amarelo na portinha amarela.

- Sim, você fez o mais lógico, mas o cabo amarelo vai nessa outra portinha ali.

- Ah.

E a internet voltou a funcionar.

E é isso, gente. Na vida eu sou esse cabo amarelo que tá errado até quando tá no lugar certo.